ANÁLISE DE COBERTURA

Terras raras: quando o modelo extrativista do Brasil vai ao divã

nexo · 24/09/2026 ·analise

<p>Candidatos propõem medidas para minerais críticos, considerados centrais para a economia digital, a transição energética e a indústria bélica. País tem a segunda maior reserva desses recursos do mundo</p> <p> </p> <p>As terras raras estão no centro de disputas geopolíticas por causa de seu uso em áreas como economia digital, transição energética e indústria bélica. No Brasil, país que detém a segunda maior reserva global desses recursos, a exploração de minerais críticos virou assunto eleitoral, sendo citada no plano de governo dos seis principais candidatos à Presidência. O sétimo Durma com Essa da temporada especial sobre as Eleições 2026 explica o que são terras raras e minerais críticos, e ouve pesquisadoras da área para entender o que o Brasil pode fazer para fugir ao modelo extrativista reproduzido desde 1500. O episódio conta com a participação de Renata Albuquerque Ribeiro, pós-doutoranda do Grupo de Indústria e Competitividade, do IE-UFRJ (Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro); e de Elaine Santos, socióloga e pesquisadora do Laboratório Nacional de Energia e Geologia, em Portugal.</p> <p>Assine o podcast: Megaphone | Apple Podcasts | Deezer | Google Podcasts | Spotify | Outros apps (RSS)</p> <p>Edição de áudio Brunno Bimbati</p> <p>Produção de arte Yasmin Menezes</p> <p>Ilustração Lua Lopes</p> Transcrição do episódio <p>Marcelo: Um conjunto de minerais estratégicos para o futuro da economia. Uma matéria prima que tá no centro de disputas globais. Uma escolha que o Brasil tem que tomar sobre esses recursos. Eu sou o Marcelo Roubicek e este é o sétimo episódio da temporada especial do podcast Durma com Essa para as Eleições de 2026.</p> <p>Mariana: Olá, eu sou a Mariana Vick e tô aqui com o Marcelo pra apresentar este podcast que vai ao ar toda semana no período das eleições de 2026, ecoando os principais temas que vão ajudar a definir essa disputa. E hoje o nosso tema são as terras raras.</p> <p>[trilha de abertura]</p> <p>Marcelo: É, Mari, o primeiro turno tá chegando e esse nosso assunto de hoje, como a gente vai mostrar, esbarra em várias questões que a gente já tratou. Entra, por exemplo, no projeto de crescimento econômico que a gente quer pro país, que a gente abordou no terceiro episódio. Entra também na discussão de soberania, que foi nosso quarto tema. E também tem a ver com a discussão de tecnologia do nosso sexto episódio.</p> <p>Mariana: Fica já a dica, então, pra quem ainda não ouviu os últimos episódios, pra revisitar esses temas que a gente tratou nesta temporada especial do Durma.</p> <p>Marcelo: Então vamos lá, Mari. Se o nosso tema é terras raras, nada melhor do que a gente começar com uma definição.</p> <p>[trilha conceitos]</p> <p>Marcelo: A expressão terras raras pode soar um pouco esquisita, porque a palavra “terras” aqui se refere a elementos químicos. Quando a gente fala em terras raras, a gente tá falando, na verdade, de um conjunto de 17 elementos.</p> <p>Mariana: E listar esses elementos parece até um trava-língua. Mas vamos lá. Eles são:</p> Escândio Ítrio Lantânio Cério Praseodímio Neodímio Promécio Samário Európio Gadolínio Térbio Disprósio Hólmio Érbio Túlio Itérbio Lutécio <p>Marcelo: Tá, e se esses elementos com nome complicado são as terras, falta a gente explicar por que elas são raras. E aqui aparece mais uma coisa estranha. Porque esses elementos não são necessariamente escassos — inclusive, a estimativa é de que suas reservas sejam de centenas de milhões de toneladas. Mas esses elementos ganharam o rótulo de “raros” porque eram considerados raridades quando começaram a ser explorados, lá nos séculos 18 e 19. E tem um fator que faz com que essa ideia se mantenha até hoje, que é a dificuldade de extração.</p> <p>Mariana: Uma expressão que muitas vezes aparece junto com “terras raras” é “minerais críticos”. Aliás, esses dois termos costumam ser usados como sinônimos, embora isso não esteja 100% certo. Então vamos lá. Minerais críticos são minerais que são considerados essenciais pra economia e que são de difícil localização ou extração. Nesse sentido, as terras raras entram na lista de minerais críticos, junto com outros elementos, como o lítio, o níquel, o cobalto, o cobre, o manganês, o nióbio e o zinco.</p> <p>Marcelo: É importante a gente dizer que não existe uma lista fechada de minerais críticos. Mas também não costuma muito fugir desses que a gente falou.</p> <p>Mariana: E outro termo muito usado são os minerais estratégicos. Aí, nesse caso, a definição é parecida com a de minerais críticos, mas não é exatamente a mesma coisa. Isso porque os minerais estratégicos são aqueles considerados importantes para o desenvolvimento de um país, por sua aplicação em alguma área, como tecnologia ou defesa. Só que aí a definição do que é estratégico varia de país a país.</p> <p>Marcelo: A gente tá trazendo todos esses termos, mas faltou a gente explicar exatamente pra que são usados os minerais críticos – e aqui a gente inclui as terras raras. Dá pra começar pela indústria de eletrônicos, na produção de bens como celulares, computadores, telas, chips, e por aí vai. Aliás, terras raras também são bem importantes para os data centers, aqueles grandes centros de processamento de dados, que estão em alta com a inteligência artificial, e que a gente discutiu no nosso último episódio.</p> <p>Mariana: Os minerais críticos também são usados para turbinas eólicas, painéis solares, baterias e motores elétricos. Ou seja, eles são necessários pra gente tirar do papel a transição energética. Boa parte daquilo que a gente menciona como alternativa pros combustíveis fósseis, como a energia eólica ou solar – ou mesmo os carros elétricos para substituir aqueles a gasolina – requer terras raras e minerais críticos como um todo.</p> <p>Marcelo: Por fim, vale a gente mencionar que esses materiais também são bastante usados na indústria de defesa. Então armamentos, radares e mísseis são outros produtos que levam esses minerais críticos.</p> <p>Mariana: Então vamos olhar sob uma perspectiva mais ampla, Marcelo. A gente tá falando de um grupo de elementos que são insumos para uma série de tecnologias de ponta, incluindo aquelas ligados à inteligência artificial; que são usados na transição energética, e, por isso, têm a ver com o enfrentamento da mudança climática; e que também estão ligados ao universo da guerra, isso num momento de vários conflitos globais. Ou seja, as terras raras e os minerais críticos como um todo têm tudo a ver com três grandes questões enfrentadas pelo mundo neste momento.</p> <p>Marcelo: Exatamente, Mari. Não é à toa que a gente tá usando as palavras “crítico” e “estratégico” aqui. Mas aqui a gente tá num podcast sobre as eleições brasileiras. Antes da gente falar sobre a parte eleitoral da conversa, a gente precisa explicar o que que tudo isso tem a ver com o Brasil, especificamente.</p> <p>Mariana: Bom, segundo o Serviço Geológico Brasileiro, o Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo. A gente tá falando de 21 milhões de toneladas desses elementos, o que dá uns 23% de todas as reservas globais, se a gente for fazer a conta com base nos números do Serviço Geológico dos Estados Unidos. E os estados brasileiros onde esses materiais estão mais concentrados são Minas Gerais, Goiás, Amazonas, Bahia e Sergipe.</p> <p>Marcelo: Só que a gente tá numa etapa ainda muito inicial de extração desses minerais. Então o que a gente tem é uma chance de discutir 1) o que a gente vai fazer com esses materiais; e 2) como que a gente vai fazer o que quer que seja com eles.</p> <p>Mariana: Bom, já vale até adiantar que essas perguntas são justamente parte da discussão eleitoral de agora. Mas a gente vai falar mais pra frente sobre isso.</p> <p>Marcelo: De todo modo, a gente pode dizer que essa discussão coloca o Brasil quase que de frente com um espelho. Porque esse debate remete a um modelo econômico que a gente adotou por séculos. E a um conceito que tá na nossa história desde 1500: o extrativismo.</p> <p>Renata Albuquerque Ribeiro: O extrativismo é um modelo econômico baseado na extração de recursos naturais em grande escala, majoritariamente para exportação, com baixo ou nenhum processamento local. Ou seja, o país extrai o recurso, exporta e lá fora os outros países vão refinar, processar esse recurso, ficando com as etapas industriais mais avançadas e mais valiosas também.</p> <p>Marcelo: Essa daí que você ouviu é a Renata Albuquerque Ribeiro, que é pós-doutoranda do Grupo de Indústria e Competitividade, do Instituto de Economia da UFRJ, a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ela explicou pra gente o que é o extrativismo. E aqui ela faz a conexão com a discussão das terras raras:</p> <p>Renata Albuquerque Ribeiro: Se a gente pensa na lógica do extrativismo, é a lógica que rege a economia brasileira há 500 anos. Então, a gente retira esse recurso, retira essa riqueza que a terra dá, esse recurso estratégico, esse recurso natural, digamos assim. E exporta a preço barato. Então a gente olha para esse recurso das terras raras ou mesmo os minerais críticos e a gente se pergunta: será que é esse o caminho, né? Será que é o extrativismo nos moldes como a gente conhece, que é o caminho para a gente pensar um desenvolvimento, um projeto nacional de desenvolvimento aqui para o Brasil?</p> <p>Mariana: Já que a Renata levantou essas perguntas, parece uma boa a gente mergulhar nelas para entender como o Brasil está pensando as terras raras. Então vamos lá.</p> <p>[trilha chamada acesso livre]</p> <p>Marcelo: Antes disso, a gente tem uma novidade pra você, ouvinte do Durma. Como você sabe, o período eleitoral é um momento que precisa de informação de qualidade. A democracia depende de informação de qualidade. Por isso, todos os conteúdos de eleições publicados no Nexo estão com acesso livre, para você ler, ouvir, assistir e compartilhar. Então acompanha a gente no nexojornal.com.br pra ficar por dentro de tudo que você precisa saber para decidir seu voto. E se gostar do nosso trabalho, assine o Nexo. Nosso jornalismo é financiado pela assinatura de gente interessada nos rumos dos país e do mundo, assim como você.</p> <p>Mas voltando pras terras raras.</p> <p>[troca de trilha]</p> <p>Mariana: Por tudo que a gente explicou sobre como as terras raras e os minerais críticos podem ser usados, não fica difícil entender por que eles ganharam protagonismo na geopolítica global.</p> <p>Marcelo: Se a gente falou que o Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, o primeiro lugar é da China. A estimativa é que mais ou menos metade das terras raras estejam em território chinês para serem exploradas.</p> <p>Mariana: Mas nesse mundo dos minerais críticos, não basta você ter o material debaixo da terra. Você precisa tirar ele de lá, ou melhor, extrair, e depois refinar e processar. E como esses elementos são de difícil extração, nada disso é trivial. Você precisa ter toda uma estrutura para garantir que vai conseguir transformar esses materiais brutos que você encontra embaixo da terra em materiais que você consegue efetivamente usar naqueles produtos industrializados que a gente citou agora há pouco.</p> <p>Marcelo: E aí é que tá outra vantagem da China no mercado internacional. Sim, eles têm as maiores reservas. Mas, mais do que isso, eles dominam a extração e o processamento. Colocando em números, 70% da extração global de terras raras acontece na China. E 90% de todo o processamento é feito por lá.</p> <p>Mariana: Quer dizer, a gente tá falando de uma vantagem muito larga em relação aos outros países. E que é especialmente relevante quando a gente leva em conta que a China é uma das duas maiores potências econômicas e militares do planeta.</p> <p>Marcelo: Por tabela, isso significa que a outra grande potência global ficou pra trás. Ou seja, os Estados Unidos estão correndo atrás pra tentar diminuir um pouco essa distância com a China. E quando a gente fala em correr atrás, na prática a gente tá falando de conseguir mais acesso a esses materiais, pra tentar competir minimamente com os produtos chineses que usam esses insumos.</p> <p>Mariana: Essa não é exatamente uma preocupação nova dos Estados Unidos. Já em 2017 o Donald Trump, quando tava no primeiro mandato, emitiu uma ordem executiva criando uma “Estratégia para Garantir Suprimentos Seguros e Confiáveis ​​de Minerais Críticos”. Nesse texto ele já falava em materiais “vitais para a segurança” e para a “prosperidade econômica da nação”.</p> <p>Marcelo: Entrando na década de 2020, o Departamento de Defesa americano colocou mais de 500 milhões de dólares pra estabelecer cadeias nacionais de fornecimento de elementos de terras raras.</p> <p>Mariana: Em 2021 e em 2023, o então presidente americano Joe Biden publicou uma série de incentivos pra essas cadeias, tanto pra estimular a mineração quanto para tentar ampliar a capacidade de processamento dos Estados Unidos. E em 2025 o Departamento de Energia anunciou uma nova leva de investimentos pra esse mesmo fim.</p> <p> </p> <p>[Áudio Donald Trump]</p> <p>Donald Trump: Over the past year, my administration has taken extraordinary steps to make sure the United States has all of the critical minerals and rare earths that we need.</p> <p>[no último ano, meu governo tem tomado medidas extraordinárias para garantir que os Estados Unidos tenham todos os minerais críticos e terras raras que precisamos]</p> <p> </p> <p>Marcelo: Esse daí é o Donald Trump se autoelogiando pelas medidas que ele tomou desde que voltou ao poder pra tentar garantir um acesso maior dos Estados Unidos a minerais críticos. Essa fala especificamente veio durante um anúncio de um programa de 12 bilhões de dólares em investimentos e financiamentos do governo americano pra projetos de terras raras. Só que a estratégia americana não se baseia só em olhar pra dentro. Eles também estão pensando em como conseguir acesso a minerais críticos de outros lugares do mundo. E adivinha? Um desses lugares é o Brasil.</p> <p>Mariana: Aqui entra a história da Serra Verde. A Serra Verde é, na verdade, a única mina que extrai terras raras hoje no Brasil. Ela começou a operar na cidade de Minaçu, em Goiás, em 2024, e ainda não atingiu sua produção total, que deve ser de 6.500 toneladas até o fim de 2027.</p> <p>Marcelo: A mina dessa empresa tem uma alta proporção de minerais pesados, como disprósio e térbio, além de neodímio e praseodímio — que, como você deve ter reconhecido pelos nomes difíceis, são parte das terras raras. Esses elementos são os mais cobiçados dentro desse grupo de minerais, e a Serra Verde é a única mineradora fora da Ásia que extrai os quatro em grande escala.</p> <p>Mariana: Em fevereiro de 2026, a Serra Verde anunciou que tava pegando um empréstimo de mais de meio bilhão de dólares junto a um banco estatal americano chamado DFC. E esse acordo já incluía uma opção pro governo americano ficar com um pedaço pequeno da empresa. Ou seja, já foi um primeiro pé que os Estados Unidos botaram na Serra Verde. Mas não foi o único.</p> <p> </p> <p>[Áudio O Povo]</p> <p>Âncora: Mais uma notícia aqui. A empresa americana USA Rare Earth anunciou nesta segunda, dia 20, um acordo para comprar a mineradora brasileira Serra Verde Group. O negócio está avaliado em cerca de 2,8 bilhões de dólares. A transação acontece em meio ao esforço dos Estados Unidos e de países aliados para reduzir a dependência da China no mercado de terras raras.</p> <p> </p> <p>Marcelo: Como você ouviu, em abril teve o anúncio de que a Serra Verde tava sendo comprada pela mineradora americana USA Rare Earth, cujo nome literalmente quer dizer “Terras Raras dos Estados Unidos”. Esse negócio foi concluído na virada de agosto pra setembro. E por esse valor de 2,8 bilhões de dólares, que fica na casa ali dos 14 bilhões de reais.</p> <p>Mariana: Uma coisa sobre essa empresa americana é que pouco tempo depois de sair o acordo pra comprar a Serra Verde, ela recebeu um pacote de financiamento de mais de um bilhão de dólares do governo dos Estados Unidos. E uma contrapartida pra esse aporte é que o Estado passa a ter uma participação acionária. Ou seja, o próprio governo americano tá virando sócio da mina de terras raras em Goiás.</p> <p>Marcelo: Uma coisa que a gente precisa ressaltar é que antes desse avanço dos Estados Unidos, não é que a Serra Verde fosse uma empresa 100% brasileira. Ela tinha sede na Suíça e tinha recebido aportes bem grandes de investidores americanos e britânicos.</p> <p>Mariana: Ainda assim, Marcelo, esse caso deixa bem claro como os Estados Unidos estão com o olho voltado pras nossas reservas de terras raras, a ponto de entrar diretamente no negócio, pra tentar pegar um pouco dessa fatia enorme da China no mercado. Aliás, a própria Serra Verde tem uma produção muito voltada pra exportação pra China. Vamos ver como vai ser a partir de agora.</p> <p>Marcelo: Outra coisa importante, Mari, é que não são só os Estados Unidos que tão demonstrado interesse nos minerais críticos brasileiros. Empresas australianas também estão fechando negócios ou investimentos em projetos por aqui. A mesma coisa com empresas chinesas. E a União Europeia também já deixou claro que tá querendo entrar nessa disputa pelos nossos recursos.</p> <p>Mariana: Tá, e se tem tanta gente olhando com interesse pra cá, como que a gente enquanto país tá olhando pra esse movimento? Como que o Brasil tá pensando as terras raras? A gente tem um plano? Esse é um assunto que vale uma discussão mais profunda.</p> <p>[troca de trilha]</p> <p>Mariana: Agora em setembro, a menos de um mês da eleição, o presidente Lula sancionou uma lei que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Basicamente, essa lei dá um primeiro passo pra definir as diretrizes pra exploração dos minerais críticos no Brasil.</p> <p>Marcelo: Uma das medidas, por exemplo, é criar um fundo garantidor de até 5 bilhões de reais. A ideia aqui é que esse dinheiro seja usado como garantia pra financiar grandes projetos, pra diminuir o risco dos empreendimentos. Esse fundo vai ter natureza privada, mas pode receber até 2 bilhões de reais da União, e ser alimentado também por estados e municípios além de entes privados.</p> <p>Mariana: A lei também cria uma rede de pesquisa e desenvolvimento pra tentar aproximar mineradoras de universidades, startups e centros de pesquisa.</p> <p>Marcelo: Outra palavra que aparece no texto é “rastreabilidade”. A ideia aqui é que se crie uma operação para garantir que toda a cadeia do setor seja estabelecida de forma legal, em conformidade com as regras socioambientais.</p> <p>Mariana: A política também cria o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos. Esse órgão vai ser vinculado à Presidência da República e composto por representantes do Executivo federal, dos estados e dos municípios, além do setor privado e da academia.</p> <p>Marcelo: O conselho vai ser responsável por criar uma lista de quais são os minerais críticos e estratégicos do Brasil. Ou seja, os termos que a gente trouxe de uma forma mais aberta no começo do episódio vão ter uma definição mais objetiva. E a relação dos elementos que entram nessa lista vai ser revisada a cada quatro anos, então não vai ser uma coisa estática.</p> <p>Mariana: E mais que isso, o Conselho Nacional vai ter um papel importante, que é o de selecionar, habilitar e aprovar os projetos prioritários. E também vai ter o poder de homologar – ou não – negócios e contratos que envolvam empresas de fora, além de eventuais mudanças de controle societário de mineradoras. Na prática, isso quer dizer que esse órgão vai ter uma espécie de poder de veto sobre negócios nessa área, e um dos motivos é pra evitar uma influência estrangeira excessiva sobre os nossos recursos.</p> <p>Marcelo: A política também cria um programa pra estimular, com benefícios fiscais, que esses materiais sejam processados no Brasil. E esse incentivo tem um mecanismo de benefício escalonado. Então quanto mais você avançar na cadeia de processamento por aqui, mais você recebe crédito fiscal.</p> <p>Mariana: Uma coisa interessante sobre essa lei é que ela menciona cinco vezes uma palavra que é uma velha conhecida nossa: soberania. A gente tem falado bastante de soberania nessa temporada, e até definiu esse conceito no nosso quarto episódio, quando a gente explicou que tem a ver com a possibilidade de um Estado exercer seu poder, e de um povo se autodeterminar. Mas e a nossa lei sobre minerais críticos? Como que ela enxerga a soberania?</p> <p>Elaine Santos: Agora, qual é a definição de soberania? Não temos. Como é que isso vai ser compreendido? Nós não sabemos. É, em que momento isso vai ser feito? Não sabemos, mas pronto, existe essa figura. Tá lá essa figura, mas a gente não sabe como que ela vai ser usada.</p> <p>Marcelo: Essa daí que você ouviu é a Elaine Santos, que é socióloga e pesquisadora do Laboratório Nacional de Energia e Geologia, em Portugal. O que ela tava dizendo é que é positivo que você tenha um esforço de defesa da soberania na Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, mas não tá muito claro o que isso quer dizer na prática. Aliás, a avaliação dela sobre a política como um todo vai nessa mesma linha: a política tem pontos positivos e boas intenções, mas não cumpre com algumas coisas importantes.</p> <p>Elaine Santos: Não ter uma política é pior, eu acho. É importante que ela exista, exatamente por isso. Porque ela coloca tudo, a gente não tinha, né? A gente não… As políticas estavam meio fragmentadas, a gente não tinha uma política específica para os minerais críticos e estratégicos. Agora a gente tem. Mas ela não tá articulada, é isso, ela não tá articulada com a estratégia de pensar um de fato uma indústria, uma cadeia, não é? Ela não tá, ela não tem essa Ela esboça uma articulação, mas ela é frágil em muitos pontos.</p> <p>Mariana: Quer dizer, o que a Elaine tá dizendo é que a gente tinha um vácuo. E esse vácuo tava sendo ocupado pelas empresas de mineração, que seguem uma lógica de mercado. Então essa política vem em boa hora pra trazer o poder público pra conversa. Mas, embora traga incentivos, ela não tem um plano claro de como a gente vai criar uma indústria de processamento de minerais por aqui – até porque os benefícios escalonados que a gente descreveu não são suficientes pra isso.</p> <p>Marcelo: Outra crítica que a Elaine fez ao texto é que ele tem lacunas importantes em relação a riscos socioambientais. Aqui vale trazer uma ideia interessante dela:</p> <p>Elaine Santos: Embora a gente fale socioambiental, acho que tem coisas distintas. Porque também tem mudanças que o ambiental não vai comportar, que são as próprias relações sociais desses locais, a ascensão econômica desses locais. Então, uma mina, ela pode criar emprego, ela pode perder ela pode perder receita, ela pode ganhar receita, pode ter novas atividades econômicas no local, isso traz novas pessoas no local, que também gera uma espécie de inflação imobiliária. Então, tem benefício, tem custo, tem problema, então o impacto social não é simplesmente uma consequência do impacto ambiental, são coisas abordadas juntamente, mas também precisam ser vistas de forma separada.</p> <p>Marcelo: Ou seja, a gente tem uma política que tem como princípio incentivar um setor. Mas uma mina tem impactos pro meio ambiente, e, como a Elaine tava contando pra gente, tem impactos pras comunidades – que incluem possíveis ganhos econômicos, mas também muitos problemas. E isso não tá contemplado na lei.</p> <p>Mariana: Aqui a gente pode recorrer de novo à Renata Albuquerque Ribeiro, que é pesquisadora do Instituto de Economia da UFRJ.</p> <p>Renata Albuquerque Ribeiro: A política não menciona explicitamente a obrigatoriedade da consulta livre prévia e informada às comunidades que podem ser atingidas pelos projetos.</p> <p>Mariana: E isso, segundo a Renata, é um problema grave.</p> <p>Renata Albuquerque Ribeiro: Os lugares onde pode haver um impacto nas comunidades locais, essas comunidades precisam ser ouvidas, elas precisam ser consultadas a respeito da exploração daquele recurso naquele território, né? E a gente tá falando muitas vezes de território e não simplesmente de terra. Território é um lugar onde se exerce uma identidade. Então, a consulta às comunidades desse território deveria ser um passo obrigatório para aprovação desses desses empreendimentos.</p> <p>Marcelo: E aí a gente desemboca em outros dois pontos de crítica que a Renata colocou quando eu conversei com ela. O primeiro é que a tramitação da lei dos minerais críticos no Congresso também não ouviu as comunidades que podem ser afetadas. As audiências públicas que discutiram esses temas convidaram empresas, associações e tudo mais, mas não organizações de sociedade civil, ONGs, movimentos sociais, associações indígenas, associações de comunidades… Ou seja, esses grupos foram excluídos do processo.</p> <p>Mariana: A Repórter Brasil publicou uma reportagem agora em agosto que mostrou que, dos mais de 2.700 pedidos de exploração feitos à Agência Nacional de Mineração nos primeiros seis meses de 2026, um quarto se sobrepõe a unidades de conservação e comunidades tradicionais, ou estão a até 10 quilômetros de distância desses lugares. Ou seja, esses territórios podem ficar expostos a riscos importantes ligados à exploração de minerais críticos. Mas, realmente, a política aprovada pelo Congresso e sancionada pelo presidente não dá atenção pra isso? Aqui a leitura da Renata:</p> <p>Renata Albuquerque Ribeiro: A política não prevê criar zonas de exclusão, não prevê definir territórios protegidos da exploração, como as terras indígenas, as comunidades quilombolas, as áreas de conhecida sensibilidade ambiental. E isso é problemático porque a gente tem no Brasil um histórico de acidentes associados à mineração, né, associados à indústria mineral e seria muito importante que a gente conseguisse proteger áreas mais sensíveis dessa exploração.</p> <p>Marcelo: Quando a Renata fala nesse histórico de acidentes, alguns casos vêm à mente. O primeiro é o desastre de Mariana, que aconteceu em 2015 depois que uma barragem de rejeitos de minério da Samarco deixou 19 mortos e um rastro de destruição e lama pelo rio Doce até o litoral do Espírito Santo. Depois, em 2019, o rompimento de uma barragem da Vale na cidade de Brumadinho, também em Minas, espalhou mais de 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos na região, matou 270 pessoas e destruiu a fauna e a flora que rodeavam a estrutura.</p> <p>Mariana: Quer dizer, não é um histórico simples de acidentes. São casos muito graves, que dão a dimensão do impacto que um acidente de mineração pode ter sobre o ambiente e sobre as pessoas de um território.</p> <p>Marcelo: Também é importante deixar claro que, quando se fala em risco da mineração de terras raras, não é que ele esteja só ligado a grandes acidentes. A gente sabe que esses casos que a gente citou são extremos. Mas o impacto ambiental pode se dar de muitas outras formas.</p> <p>Mariana: Ele pode acontecer, por exemplo, na forma de desmatamento; degradação da paisagem e do solo; na forma de ruídos e vibrações que afetam pessoas e animais; na poeira que sobe quando se perfura uma rocha; nos resíduos desses processos de mineração, que muitas vezes não são descartados do jeito certo; na poluição de nascentes e águas quando se faz o tratamento químico do minério, e aí valendo tanto pra água na superfície como debaixo da terra; e emissão de gás carbônico na atmosfera por causa do uso de máquinas pesadas.</p> <p>Marcelo: E aí de novo a gente precisa entender se a nossa Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos dá conta de abarcar esses riscos. Aqui a Renata Albuquerque de novo.</p> <p>Renata Albuquerque Ribeiro: Um outro problema da política é que ela não garante salvaguardas ambientais. Então, seria superimportante que as salvaguardas e os critérios ambientais de sustentabilidade fizessem parte dessa política de forma séria, criteriosa e robusta, justamente para evitar a possibilidade de acidentes e problemas ambientais que a gente já conhece na área na área da mineração.</p> <p>Marcelo: A Elaine Santos colocou isso de outra forma, voltando a olhar pra disputa geopolítica.</p> <p>Elaine Santos: O que acontece hoje em termos de política é que a gente não dá conta de concorrer ou de fazer frente ao domínio chinês. Ninguém tá conseguindo, né? Então, a geopolítica, ela tá sendo usada para enfraquecer determinadas salvaguardas ambientais, enfraquecer a participação pública, porque a gente tem uma certa urgência dessa extração.</p> <p>Mariana: Quer dizer, a gente tá pressionado pelo contexto internacional. E nisso a gente tá atropelando discussões importantes e topando correr riscos ambientais. E aqui entra uma contradição. Porque se a gente for lembrar, muito desse esforço que tá sendo feito pelas terras raras é pra conseguir acelerar a transição energética, que tá aí pra tentar quebrar nossa dependência dos combustíveis fósseis, e tentar diminuir o impacto da mudança climática.</p> <p>Marcelo: Eu perguntei pra Renata e pra Elaine se os problemas ambientais que vêm da exploração de terras raras podem acabar superando os benefícios da transição energética. E a resposta delas é que essa é uma pergunta ainda em aberto. A gente não sabe. Ou seja, a aposta que a gente tá fazendo é uma tentativa, mas ela tem um risco.</p> <p>Mariana: Aliás, Marcelo, quando a gente fala sobre como o Brasil quer aproveitar as terras raras e os minerais críticos como um todo, a gente pode citar a Nova Indústria Brasil, que é o nome dado à política industrial lançada pelo governo Lula em 2024. Resumindo muito, a ideia desse programa é estimular a indústria, mas dando ênfase pra aspectos mais modernos, como novas tecnologias e setores inovadores. Nesse sentido, um dos objetivos é estimular uma indústria que não seja tão dependente de combustíveis fósseis.</p> <p>Marcelo: Só que aí aparece de novo aquela contradição ambiental, como a Renata conta pra gente.</p> <p>Renata Albuquerque Ribeiro: Eu acho que esse é um link que ajudaria a dar ainda mais legitimidade, ainda mais validade para essa neoindustrialização, para a gente pensar uma nova indústria no Brasil de fato. Então, qual é o link dessas políticas, desse arcabouço, desse conjunto de políticas, qual é o link deles com as metas climáticas do Brasil? E esse também é um ponto para a gente avaliar a política nacional de minerais críticos estratégicos, né? É, para a gente realmente usar essa essa política e esses recursos de forma estratégica, seria fundamental que elas obedecessem aos objetivos ambientais e climáticos do Brasil. </p> <p>Marcelo: Ou seja, a gente tá fazendo apostas, mas nem sempre de uma forma super coerente com as preocupações sociais e ambientais que a gente deveria dar mais atenção. </p> <p>Mariana: Mas, voltando pra Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, vale a gente dizer uma coisa importante. O fato de que ela foi sancionada agora não quer dizer que o assunto de como explorar as terras raras esteja encerrado. Pelo contrário, ainda tem bastante coisa em aberto. A lei trouxe uma primeira leva de diretrizes, mas tem muita coisa que depende de mais detalhes, novas definições e decisões que podem ser tomadas daqui pra frente.</p> <p>Marcelo: Por exemplo, a gente contou que o Conselho ligado à Presidência tem poder de veto. Mas o uso ou não desse poder parece que vai depender muito de quem vai estar no Palácio do Planalto. Esse é só um exemplo, mas o ponto é que, mesmo com a aprovação dessa política, ainda tem muita coisa em aberto sobre como a gente vai lidar com as terras raras e os minerais críticos como um todo. E se a conversa tá em aberto, ela tá aparecendo também na discussão eleitoral…</p> <p>[troca de trilha]</p> <p>Mariana: Se a gente for olhar pros seis principais candidatos à Presidência – que são o Lula, do PT; o Flávio Bolsonaro, do PL; o Augusto Cury, do Avante; o Renan Santos, do Missão; o Ronaldo Caiado, do PSD; e o Romeu Zema, do Novo –, o programa de governo de todos eles cita pelo menos uma vez os termos “terras raras” e “minerais críticos”. É um sinal de como esse assunto avançou muito nos últimos quatro anos, porque ele não tinha nenhum destaque em 2022.</p> <p>Marcelo: Olhando pros programas dos dois principais candidatos, o plano do Flávio fala em suprir uma demanda muito ligada aos data centers e às novas tecnologias, e que pretende ir além da extração, pra adicionar valor agregado por aqui, pra gerar emprego e renda. Ele também diz que a sua ideia é o Estado atuar como regulador e coordenador, mas não como empresário; e que pretende atrair capital e tecnologia estrangeira. O programa do Flávio fala ainda em acelerar o licenciamento e o processo de direitos minerários, sem mencionar a questão ambiental.</p> <p>Mariana: Já o plano do Lula fala em desenvolver uma “política específica para minerais críticos e terras raras”, pra conseguir organizar as cadeias produtivas e evitar que a gente só exporte material bruto. Ele também fala em criar estratégias regionais pra mapear as reservas, beneficiar os minerais e agregar valor, pensando em – abre aspas – “inserir o país de forma soberana nas cadeias globais de valor desses recursos” – fecha aspas. Nesse trecho ele também não fala em questões ambientais.</p> <p>Marcelo: Nossas entrevistadas disseram que o Lula e o Flávio têm duas visões diferentes sobre o tema: uma que olha mais pra dentro e outra que olha mais fora. Mas, no fim, as duas são mais ou menos vagas, e não trazem propostas muito específicas.</p> <p>Mariana: Mas a gente teve um momento que marcou bem essa diferença apontada pela Renata e pela Elaine. A gente contou no nosso quarto episódio que a CPAC é uma das principais conferências da extrema direita. E na edição de 2026, o Flávio foi lá e disse o seguinte:</p> <p>Marcelo: “O Brasil vai ser o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido. Porque o Brasil é a solução para os Estados Unidos alcançarem a independência da China em relação a minerais críticos, especialmente terras raras.”</p> <p>Mariana: Nesse discurso, o Flávio falou bastante sobre o protagonismo da China nesse mercado e na necessidade de os Estados Unidos conseguirem acesso alternativo a esses produtos. E a fala dele sobre o Brasil ser a solução foi interpretada por muita gente como uma espécie de abertura de portas para os americanos. Quer dizer, no limite, um possível ou suposto entreguismo da parte do Flávio. O próprio Lula criticou o adversário por isso.</p> <p> </p> <p>[Áudio Lula]</p> <p>Lula: Antes de tudo, é preciso vencer os adversários internos. Como sempre, os traidores da pátria, mais uma vez, cairam de joelhos diante dos Estados Unidos. Prometeram entregar nossos minerais críticos e terras raras em estado bruto, a preço de banana, como aconteceu no passado com nosso minério de ferro.</p> <p> </p> <p> </p> <p>Marcelo: Essa declaração do Lula foi feita em 16 de setembro, ou seja, já na campanha eleitoral, quando ele sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. E faz uma referência a essa fala do Flávio na CPAC, alguns meses atrás.</p> <p>Mariana: Esse caso da CPAC é também uma ponte pro debate que a gente fez no nosso episódio sobre soberania, em que a gente explicou a tentativa dos Estados Unidos de interferir na eleição brasileira. Ele também ilustra como muito dessa iniciativa ocorre por meio das conexões da extrema direita em diferentes países. E com as terras raras sendo uma parte importante da conversa, neste caso.</p> <p>Marcelo: De todo jeito, Mari, as nossas entrevistadas falaram que essa relação com o fator externo é o principal aspecto do debate eleitoral quando o assunto são os minerais críticos. Mas parece que a gente não tá aproveitando a oportunidade para se perguntar, de fato, o que a gente quer com eles.</p> <p>Mariana: Tanto a Renata quanto a Elaine disseram que as reservas abundantes de terras raras no Brasil colocam a gente numa posição que é uma oportunidade. Oportunidade não só de atrair investimentos pra exploração, mas de, quem sabe, desenvolver tecnologia e uma indústria que gere valor agregado e coloque o Brasil como um ator forte nesse mercado que tá ganhando importância.</p> <p>Marcelo: Mas, segundo a Renata, pra isso, a gente precisa discutir melhor o que tudo isso significa – ou seja, os problemas e os riscos, e também as formas de fazer isso.</p> <p>Renata Albuquerque Ribeiro: A gente tem uma oportunidade. Essa agenda de terras raras, a agenda de mineração como um todo, ela é uma agenda que tem muitas controvérsias e muitas sensibilidades. É um recurso que a exploração desse recurso, ela pode trazer muitos problemas. Então, o que a gente precisa discutir com a sociedade é falar assim: “Tudo bem, a gente vai utilizar isso aqui para fomentar um projeto de desenvolvimento para o Brasil, que coloque o Brasil numa posição eh realmente de destaque e que não seja simplesmente exportador de commodities, que é o que a gente faz há muitos anos”. Então, como que essa exploração tem que ser? Como que essa exploração tem que acontecer para que ela seja de fato estratégica, para que ela não reproduza todos esses problemas que a gente já conhece?</p> <p>Marcelo: O que a Renata tá falando, basicamente, é que a gente precisa fazer esse debate pra que a gente não acabe reproduzindo aquele nosso velho extrativismo de muitos séculos pra cá.</p> <p>Mariana: A Elaine colocou uma provocação que é até anterior a isso. Porque toda essa pressão pra gente explorar rápido as terras raras tem a ver com aqueles fatores que a gente mencionou lá no começo: uma demanda crescente por produtos de uma economia digitalizada, um mercado de energia que tá entrando em transição, e um cenário internacional com cada vez mais guerras. Então não tem muito espaço pra gente pensar uma pergunta que também é legítima: se a gente quer mesmo explorar esses minerais.</p> <p>Elaine Santos: A gente pode também, né, num horizonte mais utópico, pensar em outra possibilidade de organização social, mas não me parece que as pessoas estejam indo para aí. As pessoas estão cada vez mais na internet. Eu, por exemplo, escrevi um texto também falando: Qual é a estrutura mineral que um streaming com 10 milhões de pessoas assistindo precisa? Qual é a infraestrutura necessária? Ninguém pensa nisso. Como um data center, por exemplo, toneladas de cobre para produzir um data center, teve que ter mineração. Eu não acredito num, num retorno, não acredito. Porque assim, olha para a sociedade, a sociedade está cada vez mais digitalizada. Digitalização é mineração. Então, não, eu acho que não há possibilidade de… eu gostaria que houvesse, mas não há, por enquanto a gente não tem alternativa possível.</p> <p>Marcelo: Só pra deixar bem claro: essa é uma leitura da Elaine. Tem gente que estuda e acredita em alternativas à mineração, seja apostando na reciclagem de materiais ou na economia circular, ou até em mudanças mais estruturais na nossa cultura de produção e consumo, muito baseada na compra e substituição rápida de mercadorias por modelos de nova geração.</p> <p>Mariana: De todo modo, Marcelo, o que a Elaine e a Renata disseram pra gente neste episódio é que o Brasil ainda tem muitas escolhas a fazer. Parece que a decisão sobre explorar ou não as terras raras e os minerais críticos já tá feita. Isso vai acontecer. Mas a gente tem espaço pra pensar qual vai ser o modelo que a gente vai seguir pra extrair esses recursos; como a gente vai lidar com a pressão internacional; e quais são os riscos que a gente tá disposto a tomar no meio do caminho. E essa eleição é a oportunidade pra falar disso.</p> <p>[vinheta]</p> <p>Marcelo: Do extrativismo que marca nossa história, passando pela importância das terras raras e pela forma como o Brasil lida com elas, durma com essa.</p> <p>Mariana: Com apresentação de Marcelo Roubicek e Mariana Vick, roteiro de Marcelo Roubicek, edição de texto de Mariana Vick, produção de arte de Yasmin Menezes, ilustração de Lua Lopes, pesquisa de Victoria Rengel, distribuição de Paulo Cantalice e Pedro Bardini, e edição de áudio de Brunno Bimbati, termina aqui mais um Durma com Essa. Até a próxima semana!</p>

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