ANÁLISE DE COBERTURA

O que os candidatos prometem para o meio ambiente

nexo · 22/09/2026 ·analise

<p>O ‘Nexo’ elencou as principais promessas dos presidenciáveis mais bem colocados nas pesquisas de intenção de voto. Aprimorar ações de fiscalização com inteligência artificial é ideia comum</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/09/dscf0214-3.webp" type="image/webp" medium="image"> <media:title> Parque Estadual dos Três Picos, no Rio de Janeiro </media:title> <media:credit> Fernando Frazão / Agência Brasil </media:credit> </media:content> <p>Um levantamento do instituto Ipsos feito a pedido da rede Observatório do Clima e publicado na quinta-feira (17) mostrou que 91% dos brasileiros consideram importante que candidatos proponham medidas para enfrentar a crise climática.</p> <p>79%</p> <p>dos entrevistados acreditam que o tema deve ser priorizado mesmo que implique custos</p> <p>A ocorrência de eventos climáticos extremos tem cada vez mais exigido dos gestores públicos soluções efetivas para adaptar o território e reduzir danos. O tema é um dos principais desafios para o próximo presidente da República, embora não seja priorizado por todos os presidenciáveis.</p> <p>Neste texto, que integra uma série de conteúdos sobre os planos de quem pretende governar o Brasil, o Nexo lista e analisa as principais propostas para o meio ambiente dos seis candidatos mais bem colocados nas pesquisas de intenções de voto.</p> <p></p> <p></p> Lula: continuidade e prevenção <p>O capítulo sobre meio ambiente do plano de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foca em medidas para enfrentar eventos climáticos extremos, incluindo o uso de inteligência artificial para aprimorar a fiscalização ambiental e o compromisso de atingir metas de conservação.</p> <p>67%</p> <p>é até quanto Lula (PT) promete reduzir as emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2035, em comparação a 2005</p> <p>Suas principais promessas são:</p> alcançar o desmatamento líquido zero em todos os biomas destinar terras públicas para unidades de conservação, assentamentos e territórios indígenas e quilombolas estimular estados e municípios a criarem planos estaduais e municipais de enfrentamento à emergência climática criar protocolos de proteção à população afetada por eventos extremos estruturar mecanismos permanentes de financiamento climático avançar na regulamentação do mercado de carbono ampliar programas de proteção animal e combate a maus tratos <p>“O plano reflete a continuidade do que foi a política ambiental e climática de Lula nos últimos quatro anos: contraditória na área de energia, tímida na agenda de oceanos, mas marcada por uma importante reconstrução e pelo fortalecimento da governança ambiental”, afirmou o Observatório do Clima em análise publicada em 10 de setembro.</p> <p>Embora o terceiro mandato de Lula tenha avançado na construção de políticas de proteção marinha — como a criação de uma estratégia de redução de resíduos plásticos nos mares, rios e zonas costeiras em outubro de 2025 —, o tema não aparece no plano de governo do candidato, nem no de seus adversários.</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/08/55309806701_d3bb77e6f6_o.webp" type="image/webp" medium="image"> <media:title> Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante evento em Goiânia </media:title> <media:credit> Ricardo Stuckert / PR 02.06.2026 </media:credit> </media:content> <p>A Lei Geral do Licenciamento Ambiental, um dos principais pontos de tensão entre o governo e o Congresso em 2025, também não apareceu no programa de Lula. O texto flexibilizou o conjunto de condições necessárias para que empreendimentos de pequeno, médio e grande porte potencialmente poluidores sejam autorizados.</p> <p>Para a cientista política Cristiana Losekann, professora da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo) e coordenadora do Lapaj (Laboratório de Pesquisas em Políticas Ambientais e Justiça), o programa de Lula reconhece os conflitos em torno da pauta ambiental e aposta em equalizar a agenda ambiental à econômica. </p> <p>“Se por um lado reconhece o agronegócio como importante, também se compromete com a participação da sociedade civil na construção de políticas e na manutenção de programas que ampliam a discussão ambiental na gestão pública”, disse ao Nexo.</p> Flávio Bolsonaro: desburocratização estratégica <p>Flávio Bolsonaro (PL) defende o meio ambiente como “um ativo estratégico” ao desenvolvimento do país. O programa do senador promete um conjunto de ações focadas em tornar o setor público mais ágil e integrado.</p> <p>Suas principais propostas incluem:</p> zerar o desmatamento ilegal até 2029 usar inteligência artificial, satélites e integração de bases fundiárias para ampliar fiscalizações ambientais consolidar o mercado regulado de carbono para incentivar o comércio de ativos no mercado externo incentivar a bioeconomia a partir da biodiversidade remunerar produtores pela preservação da vegetação nativa, recuperação de áreas degradadas e proteção de recursos hídricos aumentar a fiscalização ambiental sobre organizações criminosas, grileiros e desmatadores ilegais exigir transparência de financiadores e de projetos de ONGs que recebem recursos internacionais para minar “riscos ao interesse nacional” executar o Marco Legal do Saneamento Básico sancionado em 2020 para recuperação de recursos hídricos <p>O programa também fala, sem detalhar, em encerrar cargos considerados “superposições” entre o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e a Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas).</p> <p>Outra medida proposta é acelerar processos de licenciamento ambiental para projetos de grande porte, implementando prazos-limites para manifestação de autoridades, sob risco de aprovação tácita. O texto não traz detalhes sobre a promessa, contrária até mesmo à Lei Geral do Licenciamento Ambiental instituída em agosto de 2025.</p> <p>20 anos</p> <p>é o prazo proposto por Flávio Bolsonaro (PL) para que o Estado não volte atrás sobre novas regras de licenciamento ambiental após alterações feitas em um eventual mandato do senador no Planalto</p> <p>“O candidato afirma, ao longo de todo seu programa de governo, que o governo do pai será sua referência de gestão. Vale lembrar que foi exatamente na Presidência de Jair Bolsonaro que o país sofreu a pior administração ambiental e climática de toda sua história”, afirmaram as organizações que integram o Observatório do Clima.</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2023/12/27204553/Bolsonaro20e20Flavio20Bolsonaro20Wilson20Dias20Ag20Brasil20271118_binary_150626-scaled-e1753296008925.jpg" type="image/jpeg" medium="image"> <media:title> Bolsonaro concede entrevista coletiva ao lado de Flávio </media:title> <media:credit> Wilson Dias / Ag. Brasil - 27.11.2018 </media:credit> </media:content> <p>Para Losekann, há uma inversão de prioridades na forma como Flávio elabora suas propostas para o meio ambiente. “O senador torna a agenda ambiental uma questão de potencialidade econômica, mas garante, por outro lado, que ela não será entrave para os interesses de setores da economia”, disse.</p> Augusto Cury: mais tecnologia <p>Augusto Cury (Avante) tem em seu plano de governo um capítulo específico para o meio ambiente, intitulado “Floresta viva”. O documento defende o uso de “tecnologia de ponta, ciência e mobilização social” para proteger biomas e promete fazer do país uma potência mundial de energia limpa.</p> <p>2035</p> <p>é até quando o Brasil pode se tornar um dos três maiores exportadores de hidrogênio verde, conforme promete Augusto Cury (Avante)</p> <p>Para isso, o candidato promete:</p> usar inteligência artificial e drones para detectar áreas de risco implementar unidades de comando de sistemas de monitoramento com funcionamento ininterrupto e integração entre União e estados fomentar a bioeconomia e o ecoturismo em cidades amazônicas atingir 90% de matriz limpa até 2040 a partir da expansão de fontes de energia como eólica e solar regulamentar o mercado de créditos de carbono com rastreabilidade digital integrar comitês de fiscalização e proteção ambiental a iniciativas anticorrupção subsidiar ações de preservação com créditos ambientais <p>Losekann destacou que a proposta de Cury é mais sutil em tratar a pauta ambiental como um ativo econômico e vincula todo o problema ambiental a ideias de inovação. “Para Cury, todo o problema ambiental brasileiro seria resolvido com aplicação de tecnologias”, disse.</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/09/cury.webp" type="image/webp" medium="image"> <media:title> Augusto Cury em vídeo publicado no YouTube </media:title> <media:credit> Reprodução/YouTube / Augusto Cury </media:credit> </media:content> <p>Embora todos os candidatos se ancorem no uso de inteligência artificial para expandir ações, o programa de Cury é mais insistente no tema. Falta uma visão mais crítica e estratégica como pano de fundo das propostas, segundo a professora da Ufes. “Não há uma proposta que realmente reflita o lugar das recentes inovações tecnológicas no contexto dos desafios colocados para o Brasil de modo amplo”, disse.</p> <p>Para o Observatório do Clima, há um “padrão preocupante” no conjunto de propostas de Cury. “As propostas ambientais aparecem majoritariamente subordinadas a projetos de modernização econômica, desenvolvimento tecnológico e expansão produtiva”, disse a organização.</p> Ronaldo Caiado: conservar e produzir <p>O capítulo ambiental do plano de governo de Ronaldo Caiado (PSD) prevê medidas e indicadores a serem acompanhados em um eventual mandato no Planalto.</p> <p>O ex-governador de Goiás promete que o Brasil “será uma potência que transforma conservação em prosperidade”. “A política ambiental deixará de ser campo de polarização entre permissividade e punição indiscriminada”, acrescenta o candidato.</p> <p>Com isso em vista, as principais propostas de Caiado são:</p> pactuar prioridades em cada bioma com estados e municípios e reduzir conflitos de competência criar um marco nacional de licenciamento ambiental com exigências proporcionais ao impacto ambiental de cada tipo de empreendimento remunerar a conservação de água, solo, biodiversidade e carbono, articulando recursos públicos, privados e de mercados acelerar a análise e validação do CAR (Cadastro Ambiental Rural) e de Programas de Regularização Ambiental atualizar planos nacionais e municipais de enfrentamento a emergências climáticas padronizar ativos ambientais, ampliando títulos verdes e crédito para transição, evitando greenwashing atuar em negociações climáticas como fornecedor de soluções combater crimes ambientais, com foco em cadeias econômicas e não apenas executores na ponta <p>Embora Caiado proponha indicadores de acompanhamento das propostas, não há metas específicas a serem alcançadas. Assim como seus adversários, o candidato também não detalha fontes de orçamento para viabilizar seu programa.</p> <p>Na análise do Observatório do Clima, o programa do candidato reconhece a mudança climática e tem propostas consistentes. No entanto, algumas promessas vão na via contrária da proteção ambiental, a exemplo da flexibilização do licenciamento ambiental — uma de suas bandeiras enquanto governador de Goiás.</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2024/12/lula3332-7.webp" type="image/webp" medium="image"> <media:title> Ronaldo Caiado durante sua gestão no governo de Goiás </media:title> <media:credit> Lula Marques / Agência Brasil - 31.mai.2023 </media:credit> </media:content> <p>“Em novembro de 2025, Caiado anunciou que havia ‘zerado a fila do licenciamento ambiental’ [em Goiás], tratando a velocidade da tramitação como indicador de sucesso, mas a principal função do instrumento é garantir uma análise adequada para prevenir danos socioambientais e reduzir a possibilidade de tragédias”, afirmou a rede de organizações ambientais.</p> <p>Para Losekann, da Ufes, a visão de Caiado sobre a agenda ambiental vai na mesma linha de Flávio Bolsonaro, “adotando a linguagem econômica de que natureza é igual a ativos”.</p> Renan Santos: regras flexíveis e minerais críticos <p>O plano de governo de Renan Santos (Missão) não apresenta propostas específicas para o meio ambiente. Questões relacionadas à pauta ambiental aparecem em capítulos sobre agricultura, mineração, infraestrutura, energia e economia.</p> <p>Segundo o texto, mecanismos como o licenciamento ambiental geram entraves para projetos estratégicos em áreas como o agronegócio, para a qual o candidato defende uma “correção da narrativa educacional e cultural”. “A educação brasileira está tomada por uma narrativa que retrata o agro como antagonista da sustentabilidade”, afirma.</p> <p>Diante disso, o cofundador do MBL (Movimento Brasil Livre) defende a flexibilização das regras ambientais existentes com a promessa de destravar projetos econômicos, especialmente a exploração industrial de terras raras — tônica de seu programa.</p> <p>2035</p> <p>é o ano em que o Brasil passará a não depender de fertilizantes vindos do mercado externo, segundo promessa de Renan Santos (Missão)</p> <p>Suas propostas relacionadas à área ambiental são:</p> implementar a Licença Ambiental Especial prevista pela Lei Geral do Licenciamento Ambiental em projetos estratégicos, como de usinas hidrelétricas, com avaliação em até 15 dias criar um marco da exploração mineral controlada em terras indígenas, por abrigarem reservas de fosfato e potássio retomar obras da usina nuclear Angra 3, no Rio de Janeiro explorar hidrogênio verde com abertura para a bacia amazônica identificar e combater a ocupação irregular de terras com sistema automatizado de monitoramento por satélite reduzir a dependência externa de potássio e fosfato, insumos de fertilizantes <p>“A análise do plano de governo do candidato oscila entre a falta absoluta de propostas e a menção superficial de ideias que, em sua maioria, pioram o quadro de proteção ambiental e de atuação do país na agenda de clima”, afirmou o Observatório do Clima.</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/08/partido-missao-discurso-B6N1l94N.webp" type="image/webp" medium="image"> <media:title> Renan Santos durante discurso </media:title> <media:credit> Divulgação / Partido Missão </media:credit> </media:content> <p>Segundo Losekann, Renan repete a abordagem de outros candidatos ao omitir a mudança climática. O programa do candidato fala apenas em “instabilidade climática” e tampouco cita outras prioridades do setor ambiental, como a proteção dos oceanos.</p> Romeu Zema: redução do Estado <p>O plano de governo de Romeu Zema (Novo) defende integrar a preservação ambiental à atração de capital privado. Para isso, o candidato foca suas promessas em reduzir a participação do Estado e flexibilizar regras ambientais.</p> <p>“Conservar a natureza, transformar o potencial ambiental em riqueza e preparar as cidades para o clima extremo são objetivos que caminham juntos”, afirma o documento.</p> <p>Suas principais propostas incluem:</p> implementar a Lei Geral do Licenciamento Ambiental com prazos objetivos simplificar ritos administrativos para atividades de menor risco e impacto usar sensoriamento remoto por satélite, integração policial e inteligência financeira contra o crime organizado para combater o desmatamento ilegal e a grilagem desburocratizar a comercialização de créditos de carbono no mercado voluntário internacional aumentar as visitas e a gestão de unidades de conservação via concessões privadas captar investimentos privados para obras urbanas e ações de prevenção a desastres <p>A avaliação de ambientalistas destaca a flexibilização de regras ambientais proposta por Zema para incentivar investimentos, bandeira do candidato enquanto governador de Minas Gerais.</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2023/12/13083529/romeu20zema_binary_204994.jpg" type="image/jpeg" medium="image"> <media:title> Romeu Zema durante sua gestão no governo de Minas Gerais </media:title> <media:credit> Isac Nóbrega / Presidência da República </media:credit> </media:content> <p>Sua gestão no estado mineiro foi marcada por controvérsias na área ambiental, com afrouxamento de regras para setores como a mineração, reformas administrativas em órgãos públicos e redução de investimentos em setores estratégicos — como a prevenção a desastres.</p> <p>“[Esse conjunto de ações no governo de Minas Gerais] deixa fortes dúvidas sobre como os compromissos positivos do plano seriam implementados na prática”, afirmou o Observatório do Clima.</p>

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