Estes são os pontos-chave para entender as eleições de 2026
<p>Lula e Flávio Bolsonaro chegam ao dia do primeiro turno em disputa acirrada. Campanha foi marcada por escândalos de corrupção e crise do Supremo Tribunal Federal que relegou o pleito ao segundo plano</p> <p></p> <p>Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) se enfrentam neste domingo (4) no primeiro turno da eleição presidencial de 2026, quando os brasileiros também votam em deputados federais e estaduais, senadores e governadores. </p> <p>A votação ocorre após uma campanha marcada por uma crise no Supremo Tribunal Federal que ofuscou o debate eleitoral. A disputa pelo Palácio do Planalto está acirrada nas pesquisas de intenção de voto, que mostram preferências cristalizadas entre o atual presidente e o senador, com margem estreita de eleitores independentes em disputa. </p> <p></p> <p>Neste texto, o Nexo mostra o que é preciso saber no dia da votação, recupera o contexto da campanha, mostra quais foram as ações de Lula e Flávio em busca da Presidência e explica o que está em jogo no pleito.</p> O que saber sobre o dia da votação <p>Os brasileiros vão às urnas neste domingo (4) para votar em deputado federal, deputado estadual, senador (duas vezes), governador e presidente da República.</p> <p>As seções eleitorais vão funcionar das 8h às 17h do horário de Brasília. A apuração começará imediatamente após o fechamento das urnas.</p> <p>158,7 milhões</p> <p>é o número de eleitores aptos a votar no Brasil nestas eleições, segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral)</p> <p>É possível consultar o local de votação pelo aplicativo e-Título e pelo site do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), a partir do Autoatendimento Eleitoral.</p> <p>As eleições renovarão integralmente a Câmara dos Deputados (513 deputados) e dois terços do Senado (54 dos 81 senadores).</p> <p>Para os cargos de presidente e governador, as disputas podem chegar ao segundo turno — que, se ocorrer, será no dia 25 de outubro. </p> Uma campanha conturbada <p>A campanha de 2026 foi marcada pelo protagonismo do Judiciário, em meio ao escândalo do Banco Master e a uma crise no Supremo Tribunal Federal que tirou a disputa eleitoral do foco dos brasileiros.</p> <p>O caso Master chegou ao Supremo em novembro de 2025. Ao longo dos meses que antecederam a campanha, diversos vazamentos das investigações da Polícia Federal revelaram relações entre o dono do banco, Daniel Vorcaro — que está preso —, e autoridades dos Três Poderes, incluindo o senador e candidato Flávio Bolsonaro e os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/09/55297807224_fe8a597766_k.webp" type="image/webp" medium="image"> <media:title> André Mendonça e Alexandre de Moraes em sessão do STF </media:title> <media:credit> Antonio Augusto / STF 27.05.2026 </media:credit> </media:content> <p>A crise ganhou um novo capítulo quando André Mendonça, relator do caso no Supremo, retirou o sigilo, em 1º de setembro, de um relatório da PF segundo o qual Vorcaro e Moraes trocaram mensagens sobre a Operação Compliance Zero, que investiga as fraudes do Master. </p> <p>“Acha que 2ª tenho que estar fora?”</p> <p>Daniel Vorcaro</p> <p>CEO do Banco Master, em mensagem ao ministro Alexandre de Moraes em 15 de novembro de 2025, dois dias antes de ser preso ao tentar fugir em um jato particular</p> <p>A partir de então, a relação entre Moraes e Vorcaro tomou o debate público, e os ministros adotaram medidas que revelaram um conflito no interior da corte:</p> Mendonça pediu uma investigação contra Moraes Moraes, em reação, pediu uma investigação contra Mendonça no âmbito do inquérito das fake news, apontando seletividade do colega nas investigações sob sua relatoria Mendonça afastou o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, em resposta ao pedido de Moraes (que havia usado um relatório da PF para embasar o pedido contra Mendonça) Flávio Dino, em processo com objeto distinto, reintegrou Andrei à Polícia Federal Edson Fachin, presidente do Supremo, interveio na crise, evocando o inquérito das fake news e suspendendo as decisões sobre o afastamento de Rodrigues Fachin marcou uma sessão pública para analisar o pedido de investigação contra Moraes <p>A sessão, realizada em 15 de setembro, foi marcada por tensão entre os ministros — a maioria divididos em duas alas, representadas por Moraes e Mendonça. Antes do início dos trabalhos, houve vazamentos ligados ao Master envolvendo o relator do caso e os ministros Luiz Fux e Kássio Nunes Marques. A audiência teve uma série de bate-bocas. O julgamento terminou com um pedido de vista de Dino, sem qualquer definição.</p> <p>“Até a máfia tem ética. É preciso ter decência, não se comportar desta forma. Um tribunal que isso admite já não delibera com liberdade”</p> <p>Gilmar Mendes</p> <p>ministro do Supremo, referindo-se a André Mendonça na sessão no dia 15 de setembro</p> <p>“Não seja leviano. Não aponte o dedo para mim”</p> <p>André Mendonça</p> <p>ministro do Supremo, em resposta a Gilmar Mendes na sessão do dia 15 de setembro</p> <p>A crise diminuiu a reputação do Supremo perante a opinião pública e afetou Lula — cuja imagem está associada à do tribunal — nas pesquisas de intenção de voto. Para tentar reagir ao prejuízo, o presidente adotou uma série de medidas na área social na reta final do primeiro turno, como o reajuste do Bolsa Família, a proibição das bets e o lançamento do programa Desenrola 3.0. </p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/09/55529051202_9483950dde_k.webp" type="image/webp" medium="image"> <media:title> Sessão extraordinária do STF para analisar caso de Alexandre de Moraes </media:title> <media:credit> Rosinei Coutinho / STF 15.09.2026 </media:credit> </media:content> <p>Outro caso que marcou a campanha e a crise no Judiciário foi o de Nossa Senhora Aparecida. Mendonça, na função de ministro do TSE, acatou, no dia 25 de setembro, um pedido da campanha de Flávio Bolsonaro para remover das redes sociais publicações que reproduziam o boato de que o candidato do PL ou sua família pretendiam retirar da santa o título de padroeira do Brasil.</p> <p>O magistrado determinou a remoção em caráter liminar, sob a justificativa de que se tratava de desinformação. A decisão, no entanto, afetou publicações que não faziam qualquer menção ao candidato.</p> <p>A partir de então, sucederam-se decisões judiciais conflitantes sobre o caso:</p> humoristas e parlamentares recorreram da decisão no Supremo o ministro Flávio Dino suspendeu a decisão de Mendonça, derrubando a remoção dos posts a defesa de Flávio fez um novo pedido ao Supremo o ministro Luiz Fux restabeleceu os efeitos das determinações do TSE, e as publicações voltaram a ser suspensas <p>O TSE julgou a decisão inicial de Mendonça na quinta-feira (1º). Após as acusações de que estaria restringindo a liberdade de expressão, o ministro recuou de sua decisão inicial, limitando o alcance das remoções apenas às publicações que fazem referência ao boato sobre Flávio. Publicações sobre o caso de Nossa Senhora Aparecida que não fizessem menção ao candidato foram liberadas.</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/04/55131246138_c8ebc0fffd_k.jpg" type="image/jpeg" medium="image"> <media:title> O ministro Flávio Dino em sessão plenária do STF </media:title> <media:credit> Luiz Silveira / STF 05.03.2026 </media:credit> </media:content> <p>O protagonismo do Judiciário ganhou novo capítulo na quinta-feira (1º), quando decisões judiciais do TSE e do Supremo alteraram regras do debate na TV Globo previamente acordadas com os candidatos. Após as mudanças, a emissora decidiu cancelar o que seria o segundo e último confronto entre os presidenciáveis antes do primeiro turno. </p> <p>Com isso, as eleições de 2026 tornaram-se o pleito com o menor número de debates no rádio e na TV desde 1998. Foi a primeira vez em 20 anos que o primeiro turno da disputa presidencial se encerrou sem confronto direto no rádio ou na TV entre os primeiros colocados nas pesquisas de intenção de voto. </p> <p>1</p> <p>foi o número de debates presidenciais realizados na campanha para o primeiro turno das eleições de 2026; encontro foi promovido pela TV Bandeirantes, em agosto</p> <p>As eleições também ocorreram sob a sombra da interferência dos Estados Unidos, que fazem pressão política e econômica contra o Brasil desde 2025. Entre as medidas adotadas por Donald Trump, estão:</p> o tarifaço sob justificativa política sanções contra autoridades brasileiras investigações sobre práticas supostamente desleais a classificação das facções PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) como grupos terroristas <p>Relatório produzido pela Abin (Agência Brasileira de Inteligência) apontou nível crítico de possibilidade de interferência dos EUA nas eleições, como revelou em setembro o jornal Folha de S.Paulo. Reportagem do The Guardian também mostrou na quarta-feira (30) que o governo de Donald Trump destinou cerca de US$ 1 milhão (R$ 5,2 milhões) a um projeto que financia grupos que contestam decisões do Supremo. </p> <p>Como foi a campanha de Lula</p> <p>DEFESA DE LEGADO E SOBERANIA</p> <p>Lula buscou defender seu legado, mostrando o que fez nas áreas sociais ao longo de seus três mandatos (2003-2010 e desde 2023). O petista pôs suas realizações no centro da campanha e de seu plano de governo, além de fazer uma defesa enfática da soberania nacional em meio à crescente interferência americana na política e nas eleições brasileiras.</p> <p> </p> <p>USO DA MÁQUINA</p> <p>Na reta final da campanha, o governo apostou no poder da caneta. Lula anunciou um reajuste de 15% no Bolsa Família e proibiu o funcionamento das bets, como são conhecidas as apostas online. Ao longo do ano eleitoral, o Executivo também implementou medidas como o fim da “taxa das blusinhas”, o programa Move Brasil, que destina R$ 30 bilhões em crédito para taxistas e motoristas de aplicativo, e o programa Brasil Contra o Crime Organizado.</p> <p> </p> <p>AUSÊNCIA EM DEBATES</p> <p>A campanha petista apostou na estratégia de não levar Lula a debates de rádio e TV para evitar que, por ser o incumbente, ele se tornasse o único alvo dos demais candidatos. O cálculo é que o presidente tem pouco a perder com a ausência, já que é amplamente conhecido pelo eleitorado. Lula optou por dar entrevistas a rádios, TV e podcasts.</p> <p> </p> <p>ESTRATÉGIA PELO VOTO</p> <p>Com o cenário de votos calcificados e uma margem estreita de eleitores em disputa, Lula buscou reforçar e ampliar seu apoio entre mulheres e a população vulnerável. Na reta final da campanha, a atenção do petista também se voltou aos indecisos e às pessoas que deixam de votar. As abstenções tendem a ser maiores, por exemplo, entre idosos acima de 70 anos, parcela do eleitorado que tem preferência por Lula.</p> <p>Como foi a campanha de Flávio</p> <p>SEGURANÇA E ECONOMIA</p> <p>Ao longo da campanha, Flávio buscou explorar a segurança pública — tema considerado prioritário pela população — e a economia. O candidato tentou se apresentar como linha dura no combate à violência e culpou o governo Lula por problemas relacionados ao custo de vida, como o endividamento e os juros altos. O objetivo é angariar apoio entre eleitores frustrados com a gestão petista.</p> <p> </p> <p>APOIO DOS EUA</p> <p>Desde 2025, o governo Trump, alinhado aos interesses bolsonaristas, tem exercido pressão sobre o Brasil. No primeiro semestre, Flávio viajou pelo menos sete vezes aos EUA, onde se reuniu com autoridades do governo. Numa participação na CPAC (Ação Política Conservadora, da sigla em inglês), o candidato pediu que os americanos monitorem as eleições brasileiras, aplicando pressão diplomática sobre as instituições. Além disso, a campanha recebeu apoio e aconselhamento da Rockbridge Network — grupo privado de influência política e defesa de pautas conservadoras cofundado pelo vice-presidente americano, JD Vance —, segundo o site Amado Mundo e o jornal Folha de S.Paulo. A assessoria do presidenciável nega ter recebido verba ou estrutura estrangeira — o que é proibido pela legislação. </p> <p> </p> <p>SOMBRA DE ESCÂNDALOS</p> <p>Flávio é investigado no caso Master por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas ligadas ao financiamento do filme “Dark Horse”. Também já foi investigado por um esquema de “rachadinhas” que teria ocorrido entre 2008 e 2017, quando era deputado estadual no Rio, e acusado por lavagem de dinheiro utilizando transações com imóveis e uma loja de chocolates da qual era sócio. Além disso, quando era deputado estadual, Flávio apresentou uma moção de louvor a Adriano da Nóbrega e empregou a mãe e a esposa do policial militar, apontado pelo Ministério Público como parte da milícia de Rio das Pedras e um dos chefes do Escritório do Crime. A revista Piauí revelou ainda que, em 2023, o senador destinou emendas de R$ 200 mil a um projeto do miliciano Robson Calixto, ligado ao assassinato de Marielle Franco. O candidato nega qualquer irregularidade.</p> <p> </p> <p>REABILITAÇÃO DO GOLPISMO</p> <p>O filho primogênito de Bolsonaro prometeu reiteradas vezes que, se for eleito, vai anistiar seu pai e outros envolvidos na tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. Antes de se tornar candidato, defendeu o uso da força para obter êxito nesse intento. Além disso, utilizando um dos expedientes do golpismo, o candidato repetiu desinformações — já desmentidas — sobre as urnas eletrônicas num evento privado com diplomatas estrangeiros.</p> <p> </p> <p>ESTRATÉGIA PELO VOTO ÚTIL</p> <p>Sendo o candidato mais competitivo da direita e extrema direita contra Lula, Flávio tem apelado para a estratégia do voto útil para explorar o sentimento antipetista e desidratar outros nomes de seu campo político.</p> <p> </p> O que está em jogo nas eleições <p>Diante da tensão com uma ala do Supremo, o bolsonarismo montou uma estratégia eleitoral para eleger a maior quantidade de senadores possível em 2026, na tentativa de alterar a composição da corte. </p> <p>A Casa Alta é a responsável por confirmar a indicação de ministros ao Supremo e por conduzir seus processos de impeachment, pauta principal de muitos candidatos do campo bolsonarista. Obtendo uma relativa maioria no Senado, o grupo teria força para eleger um novo presidente da Casa em fevereiro de 2027 e, assim, capturar o Judiciário — considerado a última fonte de resistência contra movimentos autocráticos.</p> <p>109</p> <p>é a quantidade de pedidos de impeachment contra os 10 ministros do Supremo que constam no Senado, segundo Davi Alcolumbre (União-AP), presidente da Casa; ele segurou todos até aqui</p> <p>O principal objetivo do grupo é destituir Alexandre de Moraes, que se tornou algoz de Jair Bolsonaro (PL) ao ser a voz ativa do Supremo durante o seu governo, ao conduzir as eleições de 2022 — que deram vitória a Lula — na presidência do TSE e ao relatar o julgamento que, em 2025, condenou o ex-presidente a mais de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/04/1280px-Fachada_do_Congresso_Nacional_52232492084.jpeg" type="image/jpeg" medium="image"> <media:title> Fachada do Congresso Nacional, a sede das duas Casas do Poder Legislativo brasileiro </media:title> <media:credit> Wikimedia Commons </media:credit> </media:content> <p>O caso Master, que reúne Flávio e Moraes no mesmo escândalo, deu combustível para a pauta bolsonarista. O Supremo, por sua vez, enfrenta a maior crise institucional da sua história.</p> <p>Além do Senado, o presidente eleito em 2026 terá poder para alterar a composição do Supremo ao indicar quatro ministros para a corte até 2030. Os indicados ocuparão as vagas de:</p> Luiz Fux, que se aposenta compulsoriamente em 2028 Cármen Lúcia, que se aposenta compulsoriamente em 2029 Gilmar Mendes, que se aposenta compulsoriamente em 2030 Luís Roberto Barroso, que se aposentou em 2025 (Lula indicou o advogado-geral da União, Jorge Messias, para ocupar sua vaga, mas o Senado barrou a indicação em abril) <p>As eleições de 2026 também devem definir o modelo de relação entre o Brasil e os Estados Unidos. </p> <p>Flávio defende um alinhamento automático com os americanos, incluindo a intensificação de acordos comerciais e a facilitação no acesso a minerais de terras raras brasileiros. Já Lula prega a manutenção da soberania, com uma relação pragmática, sem dar preferência a qualquer parceiro comercial em relação aos minerais.</p>
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| Candidato | Sentimento |
|---|---|
| Flávio Bolsonaro | negativo |
| Lula | neutro |