O governo Trump é o sujeito oculto destas eleições
<p>Pressão da Casa Branca diferencia o quadro eleitoral brasileiro de 2026 das disputas anteriores. Cenário se agrava pelo fato de que segundo mandato do republicano opera pela lei do mais forte</p> <p>Teremos em alguns dias o primeiro turno das eleições presidenciais e, seja agora ou (mais provavelmente) três semanas depois, após o segundo turno, Lula ou Flávio Bolsonaro será declarado vencedor do pleito. Pela terceira eleição seguida, temos o confronto entre Lula e Jair Bolsonaro, seja diretamente ou por meio de prepostos de um ou de outro.</p> <p>Como já argumentei aqui, isso reflete o caráter bipartidista introduzido no cenário político brasileiro desde a adoção da eleição em dois turnos, após a Constituição de 1988. Desde que Lula e o PT consolidaram o campo da esquerda derrotando Leonel Brizola em 1989, esse bipartidismo se dá no eixo PT versus anti-PT, e a extrema direita representada pelo bolsonarismo logrou, a partir de 2018, a supremacia sobre o segundo campo, tomando o posto que antes pertencia ao PSDB.</p> <p>Parece, então, que o que temos é apenas mais do mesmo. Não por outra razão, esta campanha tem sido muito mais morna do que a de quatro anos atrás: familiaridade gera tédio. Torna-se difícil manter um grau alto de mobilização em torno de um embate repetido; ainda mais quando, diferentemente de 2022, não temos um presidente abertamente indicando que não irá aceitar uma derrota nas urnas e tentando mobilizar apoio político e militar para um golpe.</p> <p>Ocorre que há um elemento diferente agora, e ele é de suma importância: o governo que ocupa a Casa Branca em Washington. Isso muda muito o cenário.</p> <p>Note que usei a palavra “governo”, e não “presidente”. Afinal de contas, já não tivemos uma eleição, em 2018, com Donald Trump na presidência? Sim, mas é preciso entender que o segundo governo Trump é um animal completamente diferente da primeira versão.</p> <p>O segundo governo Trump é a concretização da lei da selva em escala mundial: as feras estão no controle e salve-se quem puder. E é nesse contexto que ocorrem nossas eleições de 2026</p> <p>Para compreender o porquê, sigamos com a analogia zoológica. O que tínhamos em 2017 era uma fera recém-chegada a um novo habitat, com pouquíssima familiaridade com o lugar onde estava. Ninguém esperava que ela tivesse chegado aonde chegou, e ela muito menos. Nesse contexto, ela se viu enjaulada, cercada por cuidadores cujo objetivo explícito era cerceá-la e assegurar-se de que ela não poderia escapar e causar danos mais severos. A fera atacou em 6 de janeiro de 2021, quase conseguiu fugir, mas acabou contida. Em vez de administrarem a eutanásia política, os cuidadores republicanos acharam que ela já estava mortalmente ferida, e optaram por deixá-la ali para sangrar. </p> <p>Não foi o que aconteceu. A Suprema Corte deu a Trump a chave de todas as jaulas ao decidir dar-lhe imunidade contra processos criminais, e ele fez uso disso para se tornar o dono do parque inteiro. O segundo governo Trump é, portanto, a concretização da lei da selva em escala mundial: as feras estão no controle e salve-se quem puder. Estamos todos à mercê, e é nesse contexto que ocorrem nossas eleições de 2026.</p> <p>Em 2022, como já ficou estabelecido, o governo Biden trabalhou nos bastidores no sentido de defender a democracia brasileira contra a tentativa de golpe urdida por Jair Bolsonaro. O golpe falhou, em última análise, porque não teve apoio suficiente nas Forças Armadas; mas essa ausência de apoio não pode ser descontextualizada de uma situação na qual os militares sabiam que uma ruptura não encontraria aval internacional.</p> <p>O que temos agora é distinto: não há nenhuma evidência ou indicação de que haja uma tentativa de golpe sendo construída. Mas já sabemos, ou deveríamos saber, que a democracia pode ser solapada de formas muito menos drásticas do que aquela; de fato, o que tornou as ações de Bolsonaro há quatro anos particularmente chocantes foi seu caráter à moda antiga. Já não se fazem golpes como antes, mas Bolsonaro tentou assim mesmo.</p> <p>O que temos diante de nós neste momento? Primeiro, ações concretas: os repetidos tarifaços e atos hostis por parte do governo norte-americano, especialmente por parte do Departamento de Estado. Comandado por Marco Rubio, político de conhecidas afinidades ideológicas e preocupações relacionadas à América Latina, e com conexões explícitas com o bolsonarismo, o centro formulador da política externa dos EUA já deixou claras as suas preferências.</p> <p>Mais ainda, temos uma perspectiva que permanece em larga medida oculta no debate eleitoral brasileiro, mas que é o proverbial elefante na sala: a possibilidade concreta de que um resultado eleitoral favorável ao presidente Lula não seja reconhecido pelo governo Trump.</p> <p>As narrativas para tal já estão sendo construídas, mas é preciso entender: os EUA, sob Trump, não precisam de justificativas plausíveis. Os tempos da tão criticada hipocrisia da política externa norte-americana há muito já se foram: agora é a lei do mais forte pura e simples, e sem disfarces. Ao vencedor, os espólios.</p> <p>Mas o que significaria isso na prática? A meu ver, a possibilidade de intervenções de cunho militar no Brasil, à la Venezuela, são um risco muito distante. Tampouco me parece que o governo dos EUA tenha a capacidade de insuflar um levante que pudesse, digamos, impedir a concretização do resultado eleitoral brasileiro. Não se trata aqui do famigerado “risco zero”, o que em si já é chocante, mas focar nisso é dar margem para desacreditar outros cenários muito mais plausíveis.</p> <p>O que me parece perfeitamente possível é que um acúmulo de pressões exercidas pelos EUA — por meio, por exemplo, de sanções econômicas e diplomáticas ainda mais severas do que as que já foram implementadas — enfraqueça enormemente um eventual quarto governo Lula. Dado que, por questões várias — da idade do presidente à situação fiscal que se delineia, passando pela fragilidade no Congresso —, o governo já enfrentaria desafios profundos, esse enfraquecimento pode chegar a um ponto fatal.</p> <p>Paradoxalmente, isso torna a eleição menos decisiva do que poderia parecer. Não estamos diante de uma escolha entre alinhamento ou não aos EUA: ganhe quem ganhar, essa disputa continuará ocorrendo. Na geopolítica da lei da selva, o eleitor dos países que não são superpotências — as “potências médias”, no dizer do seu líder contemporâneo mas incisivo, o primeiro-ministro canadense Mark Carney — parece ter cada vez menos poder para ditar os rumos.</p> <p>PS: Eu apontei neste espaço, em dezembro de 2023 — ou seja, um ano antes de ele retornar à presidência —, que Donald Trump representava o maior risco para a democracia brasileira em 2026. Não digam que faltou aviso…</p>
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| Candidato | Sentimento |
|---|---|
| Flávio Bolsonaro | neutro |
| Lula | neutro |