As campanhas de Lula e Flávio após um mês, sob análise
<p>Excesso de foco do presidente no passado e falta de identidade própria do senador são fraquezas identificadas por cientistas políticos ouvidos pelo ‘Nexo’. Intenções de voto seguem com pouca variação </p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/09/teaser_lulaflavio3.webp" type="image/webp" medium="image"> <media:title> Lula e Flávio Bolsonaro em seus programas eleitorais na TV </media:title> <media:credit> Reprodução / Arte Nexo Jornal </media:credit> </media:content> <p>A campanha eleitoral começou oficialmente em 16 de agosto, e Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), principais candidatos à Presidência, têm menos de duas semanas até a data do primeiro turno para realizar comícios, fazer carreatas e distribuir material de campanha. </p> <p>Ambos os candidatos concorrem num contexto em que a eleição acabou em segundo plano no debate público, diante da crise do Supremo Tribunal Federal, que deslocou as atenções para a corte. </p> <p>Neste texto, o Nexo mostra os temas centrais das campanhas de Lula e Flávio e analisa com cientistas políticos os erros e acertos de cada uma. </p> O cenário nas pesquisas eleitorais <p>Lula e Flávio têm se mantido estáveis nos levantamentos de intenção de voto desde o início da campanha, segundo o agregador de pesquisas eleitorais do Nexo. Os gráficos abaixo mostram a linha de tendência da disputa entre os dois nos cenários de primeiro e segundo turno. </p> <p> </p> <p>O pior momento do candidato do PL foi em maio, após a revelação do caso “Dark Horse”, quando pesquisas como a da Atlas/Bloomberg apontaram queda nos cenários de disputa com Lula no segundo turno. </p> <p>O senador, no entanto, se recuperou nos meses seguintes, aparecendo numericamente à frente de Lula num dos cenários de segundo turno de um levantamento da Quaest (registro BR-03607/2026 no TSE) divulgado na segunda-feira (14). O candidato do PL tem 42%, enquanto o petista tem 40% — diferença que está dentro da margem de erro do instituto, de dois pontos percentuais.</p> <p>Pesquisa Datafolha (registro BR-04029/2026 no TSE) divulgada na quinta-feira (17) também mostra que a diferença entre Lula e Flávio está estreita e dentro da margem de erro — que, neste caso, também é de dois pontos percentuais para mais ou para menos. </p> <p>39% e 46%</p> <p>são as intenções de voto em Lula no primeiro e no segundo turno, respectivamente, segundo o Datafolha </p> <p>36% e 44%</p> <p>são as intenções de voto em Flávio no primeiro e no segundo turno, respectivamente, segundo o Datafolha </p> A campanha de Lula: defesa de legado e soberania <p>Neste primeiro mês, os programas eleitorais e os materiais de campanha de Lula, que busca seu quarto mandato na Presidência, focaram principalmente na soberania nacional.</p> <p>A discussão sobre soberania foi atrelada à defesa da democracia, em contraponto às articulações do bolsonarismo, que desencadearam o tarifaço americano a partir de 2025 e uma crise diplomática considerada sem precedentes entre o Brasil e os Estados Unidos.</p> <p>Em 2025, a reação enfática de Lula às tarifas de Trump gerou melhora na avaliação do governo, inclusive fora de suas bases de apoio tradicionais. </p> <p>Na propaganda eleitoral exibida em 1° de setembro, Lula chamou de “traidores da pátria” aqueles que estão dispostos a entregar as reservas brasileiras de terras raras a outros países. </p> <p>Um dos programas tratou especificamente do tema, com o presidente explicando que a exploração desses recursos pode gerar mais emprego e renda — por isso, não pode ser “entregue” a outros países. </p> <p>A defesa do legado de Lula é outro aspecto presente nos materiais, que mostram um Brasil “antes e depois” dos seus governos, aludindo a programas como o Minha Casa Minha Vida e o Bolsa Família, ao aumento de brasileiros com formação universitária e à melhora dos índices econômicos. A campanha trata ainda de realizações do terceiro mandato do presidente, como o programa Pé-de-Meia. </p> <p>Segurança pública, economia, poder de compra e críticas ao bolsonarismo são outros assuntos recorrentes dos programas eleitorais. </p> <p>Na propaganda exibida na quinta-feira (17), por exemplo, Lula disse que não existe “solução fácil” para a segurança, mas que “não deu certo” a decisão do Brasil de deixar o tema apenas na alçada dos estados — já que, pela Constituição, a responsabilidade pela área fica a cargo dos governadores. </p> <p>Para mudar isso, Lula propôs a PEC da Segurança Pública, entregue ao Congresso Nacional em 2025 e até agora parada no Senado. A votação na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) começou no dia 2 de setembro, mas não foi concluída. </p> <p>Caso seja reeleito, o presidente afirmou que vai adotar medidas para combater o crime “da esquina ao andar de cima”, englobando roubos de celular, agressão às mulheres e outras formas de violência — além de “fechar a torneira” que abastece o crime organizado com ações de inteligência. </p> <p>Para o estrategista político Marcos Marinho, professor do curso de publicidade e propaganda da PUC-Goiás (Pontifícia Universidade Católica de Goiás), Lula gastou muito tempo com a defesa de seu legado na primeira fase da campanha. </p> <p>“Gastou-se menos tempo trazendo quem vai ser o Lula do quarto mandato e o que ele, de fato, vai entregar. A campanha ainda não conseguiu apresentar para o eleitor remédios novos para dores atuais. Mesmo aqueles que já foram beneficiados em governos anteriores do PT têm outras questões hoje em dia”</p> <p>Marcos Marinho</p> <p>estrategista político e professor do curso de publicidade e propaganda da PUC-Goiás (Pontifícia Universidade Católica de Goiás), em entrevista ao Nexo</p> <p>Já Adriano Oliveira, professor do Departamento de Ciência Política da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), avalia que o resgate da memória do eleitor em relação aos mandatos anteriores de Lula é um ponto forte do candidato, que acertou em resgatar esse período. “De qualquer forma, existe uma impopularidade estrutural e uma calcificação do voto que dificulta o crescimento de Lula”, afirmou ao Nexo. </p> <p>Nas próximas semanas, a equipe da campanha de Lula estuda alterar a rota. Segundo o jornal Valor Econômico, os materiais vão deixar de lado a soberania nacional e a prioridade será apresentar propostas concretas em preocupações imediatas, como saúde, segurança e educação. </p> <p>Nas redes sociais, essa lista de propostas já está sendo difundida, segundo Márcia Ribeiro Dias, diretora da Escola de Ciência Política da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro). Para ela, o meio digital é muito mais eficaz para esse tipo de divulgação do que a propaganda eleitoral na TV e no rádio. </p> <p>“Existe uma discussão programática na campanha de Lula, e isso é muito positivo para o debate público”, afirmou Dias ao Nexo. </p> <p>“As campanhas eleitorais deveriam, em tese, focar no programa de governo. Nós vivemos em uma democracia. Os eleitores escolhem seus candidatos em termos de representação política e soluções para a vida coletiva. Só que a eleição hoje é tudo, menos programática. Está atravessada por questões de ordem afetiva, muitas vezes associadas aos costumes, crenças e valores morais”</p> <p>Márcia Ribeiro Dias</p> <p>diretora da Escola de Ciência Política da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), em entrevista ao Nexo </p> A campanha de Flávio: segurança e soluções rápidas <p>Neste primeiro mês, os programas eleitorais e materiais de campanha de Flávio Bolsonaro, alçado a substituto do pai, Jair Bolsonaro (PL), exploraram sobretudo políticas de segurança e economia, críticas ao Supremo Tribunal Federal e o alinhamento internacional com os EUA. </p> <p>Em motociata no Ceará na quarta-feira (16), Flávio afirmou que sua vitória nas urnas é o “único jeito de libertar o Supremo e proteger as instituições”. A declaração ocorreu um dia depois do julgamento que iria deliberar sobre a abertura de investigação contra Alexandre de Moraes por envolvimento com o banqueiro Daniel Vorcaro — adiado após pedido de vista de Flávio Dino. </p> <p>Já no programa eleitoral gratuito exibido na quinta-feira (17), o conteúdo foi voltado às mulheres. O vídeo mostrava uma mulher dirigindo um carro e um aplicativo de localização apontando problemas como violência de gênero e roubo de celular. O material teve — tirando Flávio — elenco exclusivamente feminino, incluindo Michelle Bolsonaro (PL). </p> <p>Em junho, a madrasta havia publicado um vídeo dizendo que tinha sido “humilhada” por Flávio no PL. Depois da exposição da briga, os dois afirmaram que as desavenças estavam sanadas — mas, mesmo assim, Michelle tem aparecido pouco na campanha. Seu papel é considerado fundamental para atenuar a rejeição feminina ao senador. </p> <p>Além de propostas específicas para mulheres, Flávio tratou no vídeo de sua atuação pró-empreendedorismo no Senado — por exemplo, como relator, na Comissão de Assuntos Econômicos, de um projeto que busca alterar o Estatuto Nacional da Microempresa. Em entrevistas, o candidato costuma criticar o que chama de “excesso de burocracia” para abrir um pequeno negócio. </p> <p>2</p> <p>é a quantidade de projetos que Flávio Bolsonaro teve aprovados em sete anos como senador, segundo levantamento do UOL </p> <p>Quando fala de violência, Flávio aposta no endurecimento penal. O candidato diz, por exemplo, que vai reduzir a maioridade penal no Brasil para 16 anos e propor a castração química de criminosos que abusam de mulheres e crianças. </p> <p>Outra parte importante de sua campanha são as críticas ao atual governo. “O PT governou por 20 anos e não mudou. Por que iria mudar de novo?”, disse Flávio em programa na quinta (17). </p> <p>Segundo Dias, o senador aposta em algo que é padrão nos políticos que desafiam o candidato à reeleição: apontar as fragilidades do governo e oferecer alternativas. </p> <p>“Flávio explora sentimentos políticos, aposta em uma pauta moral e fala de uma compreensão de mundo que não é necessariamente o presidente da República que vai resolver. Ele tem apostado mais nas fragilidades e nos sentimentos eleitorais — uma estratégia válida, que foi bem-sucedida em diversos momentos”.</p> <p>Márcia Ribeiro Dias</p> <p>diretora da Escola de Ciência Política da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), em entrevista ao Nexo </p> <p>Para Marinho, a campanha entendeu quais são as “dores” das pessoas neste momento — embora as propostas apresentadas por Flávio sejam pouco aprofundadas. “Por exemplo, ele bate na segurança, que é uma pauta sensível, e associa Lula ao problema. É uma construção que, para o eleitor médio, funciona”, disse. </p> <p>Ainda assim, falta a Flávio se desvencilhar da figura de Jair, segundo ele. “Ele tem esse piso [de intenções de voto] alto ao herdar os eleitores e o capital político do pai, mas precisa trazer alguma identidade própria em algum nível”, afirmou. </p> <p>Marinho ressalta ainda que parecem estar assimilados pelo eleitor os pontos fracos da candidatura de Flávio, atrelados a suspeitas de corrupção, como:</p> o caso das rachadinhas, de quando era deputado estadual no Rio de Janeiro as investigações de lavagem de dinheiro numa loja de chocolates da qual era sócio o empréstimo de R$ 3,1 milhões para a compra de uma mansão o envolvimento com Daniel Vorcaro para financiar “Dark Horse” <p>“Talvez o peso da corrupção do Banco Master não esteja dando o resultado esperado pela campanha de Lula porque a corrupção de Flávio já está precificada. O peso da não entrega do governo Lula é mais recente, e isso pode fazer com que o eleitor queira negar o quarto mandato. Vai ser o voto da negação e da mudança, o que está muito apropriado na campanha de Flávio”, disse. </p>
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| Candidato | Sentimento |
|---|---|
| Flávio Bolsonaro | neutro |
| Lula | neutro |