ANÁLISE DE COBERTURA

Como o protagonismo de Mendonça alcança eleitores evangélicos

nexo · 21/09/2026 ·analise

<p>Crise entre ministro e Alexandre de Moraes permeia discurso de fé do bolsonarismo nas redes sociais, segundo estudo. Campanha anti-Lula ganha força entre lideranças religiosas</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/09/55530386789_164393a589_k.jpg" type="image/jpeg" medium="image"> <media:title> O ministro André Mendonça em sessão extraordinária no Supremo </media:title> <media:credit> Alejandro Zambrana / STF 15.09.2026 </media:credit> </media:content> <p>O embate entre André Mendonça e Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal mobilizou, nas redes sociais, discursos baseados numa leitura espiritual dos acontecimentos na corte, segundo estudo da organização Casa Galileia em parceria com o Instituto Democracia em Xeque. </p> <p>Um mapeamento nas redes sociais evangélicas realizado pelos pesquisadores entre os dias 31 de agosto a 13 de setembro mostra que Mendonça é classificado como “escolhido” e “instrumento de Deus”, ao passo que Moraes é associado a um campo espiritual adversário em uma “batalha do bem contra o mal”. </p> <p>Neste texto, o Nexo mostra qual o alcance do discurso que articula religião e política, quais os motivos de identificação do público evangélico com Mendonça e como isso afeta a tentativa de reaproximação de Lula com esse segmento do eleitorado. </p> De ‘terrivelmente evangélico’ a pivô de crise <p>André Mendonça foi indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro (PL) em 2021. Na época, ele ocupava o cargo de advogado-geral da União e já havia sido ministro da Justiça do ex-presidente. O magistrado também é pastor auxiliar na Igreja Presbiteriana de Pinheiros, em São Paulo. </p> <p>Mendonça tomou posse após o processo no Senado se arrastar por meses. Na época, quem presidia a Casa era Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que assumiu o comando pela segunda vez em fevereiro de 2025 e segue no cargo. </p> <p>A indicação de Mendonça à corte foi um gesto de Bolsonaro ao eleitorado evangélico, crucial para sua vitória em 2018. Já no cargo, em julho de 2019, o então presidente disse durante um culto na Câmara dos Deputados que levaria um ministro “terrivelmente evangélico” ao Supremo.</p> <p>“O Estado é laico, mas nós somos cristãos. Esse espírito deve estar presente em todos os Poderes. Por isso, meu compromisso: poderei indicar dois ministros para o Supremo Tribunal Federal; um deles será terrivelmente evangélico”</p> <p>Jair Bolsonaro</p> <p>então presidente, em declaração em julho de 2019</p> <p>Desde que se tornou ministro, Mendonça relatou processos envolvendo temas como liberdade religiosa, revista íntima vexatória em presídios, bloqueios de perfis nas redes sociais e os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. </p> <p>Em 2026, ele acabou alçado a um dos nomes mais poderosos do Supremo ao acumular a relatoria das investigações das fraudes no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e do escândalo financeiro do Banco Master.</p> <p>Mais tarde, em setembro, tornou-se o pivô de uma crise sem precedentes no tribunal ao pedir a abertura de uma investigação contra Alexandre de Moraes por envolvimento com Daniel Vorcaro. </p> <p>A sessão extraordinária marcada na última terça-feira (15) para o plenário da corte decidir se o pedido de Mendonça era cabível se transformou num bate-boca e acabou com pedido de vista de Flávio Dino — o que adiou o julgamento por 90 dias. </p> <p>“Até a máfia tem ética. É preciso ter decência, não se comportar desta forma. Um tribunal que isso admite já não delibera com liberdade”</p> <p>Gilmar Mendes</p> <p>ministro do Supremo, referindo-se a André Mendonça em sessão desta terça-feira (15)</p> <p>“Não seja leviano. Não aponte o dedo para mim”</p> <p>André Mendonça</p> <p>ministro do Supremo, em resposta a Gilmar Mendes na terça-feira (15)</p> <p>Parte dos ministros argumentou que era necessário apreciar em conjunto o pedido de investigação de Mendonça contra Moraes e o de Moraes contra Mendonça. O ministro indicado por Michel Temer (MDB) havia feito solicitação semelhante contra o colega alegando abuso de autoridade e direcionamento das investigações dos casos do INSS e do Master. </p> <p>A sessão sobre a conduta de Mendonça, inicialmente, estava marcada para esta quarta-feira (23). Diante da repercussão negativa do julgamento sobre Moraes, que aprofundou a crise no Supremo, o presidente do tribunal, Edson Fachin, retirou o assunto da pauta. </p> ‘Instrumento de Deus’ <p>Segundo o mais recente monitoramento “Narrativas Evangélicas e contexto eleitoral” realizado pela Casa Galileia e pelo Instituto Democracia em Xeque, a crise entre Mendonça e Moraes, além dos atos de 7 de Setembro, reativaram nos perfis bolsonaristas uma narrativa profética sobre os rumos do Brasil. </p> <p>As publicações atrelam a disputa no Supremo a mensagens religiosas já mobilizadas em outros momentos, de acordo com o levantamento, que foi realizado entre 31 de agosto e 13 de setembro em 573 perfis de influenciadores evangélicos e lideranças religiosas e políticas.</p> <p>Nomes como o pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, a bispa Sônia Hernandes, fundadora da Igreja Renascer em Cristo, e a pastora Valnice Milhomens, do Ministério Palavras da Fé, estão entre os que defendem a ideia de que Mendonça é um “instrumento de Deus”. Malafaia resgatou um vídeo seu realizado no ato de 7 de setembro de 2025 como sendo uma “palavra profética” sobre Alexandre de Moraes.</p> Ver esse post no Instagram <p>Um post compartilhado por Pastor Silas Malafaia (@silasmalafaia)</p> <p>As lideranças também colocam o ministro como símbolo de uma possível restauração da Justiça, dizendo que a “queda de adversários”, seja na política ou em instituições como o Supremo, é resultado de uma ação divina. </p> <p>Embora não seja novidade a importância de Mendonça no campo evangélico, as defesas mais recentes do ministro foram puxadas sobretudo por um vídeo do ministro direcionado a aliados, segundo a antropóloga Lorena Mochel, uma das autoras do levantamento. A gravação foi publicada em 4 de setembro.</p> <p>“Não é um movimento orgânico do campo evangélico. Mendonça puxa isso com o vídeo da oração. As lideranças reagem ao material e isso dá força para que as postagens circulem”, afirmou ao Nexo.</p> Ver esse post no Instagram <p>Um post compartilhado por TIMES BRASIL - LICENCIADO EXCLUSIVO CNBC (@otimesbrasil)</p> <p>Mochel afirmou que é explícita nas redes do campo evangélico a “batalha espiritual” entre Mendonça e Moraes. Enquanto o ministro indicado por Bolsonaro recebe qualificações como “herói nacional”, “cristão fervoroso” e “homem de Deus” perseguido e injustiçado, seu par no Supremo é associado a uma figura demoníaca, que age com mentira e falsidade. </p> <p>As postagens também comparam Mendonça a Daniel, figura bíblica jogada pelo rei Dario em uma cova de leões. O ministro seria um homem solitário e acuado, que tenta defender o bem. </p> <p>Em pedidos de oração a favor de Mendonça, prevalece a mensagem de que Moraes vai sofrer sanções de um Deus vingativo, segundo a pesquisa da Casa Galileia e do Instituto Democracia em Xeque.</p> <p>“Há uma gramática religiosa muito importante na defesa de Mendonça, que é visto nas redes como um cristão autêntico e verdadeiro antagonizando com Moraes como a figura de um demônio representando a batalha espiritual entre o bem contra o mal”</p> <p>Lorena Mochel</p> <p>antropóloga e assessora de pesquisa na Casa Galileia, em entrevista ao Nexo </p> <p>A pesquisa detectou ainda que, no contexto das críticas ao Supremo, voltou a circular entre evangélicos radicalizados à direita pedidos para que seja instaurado no Brasil o “Modo Nepal”, em referência às manifestações majoritariamente lideradas pela Geração Z que geraram a derrubada, em 2025, do então primeiro-ministro K.P. Sharma Oli. </p> <p>Publicações como a do pastor e produtor musical Wesley Ros, com alcance de quase 700 mil seguidores, passaram a ser usadas para popularizar o termo e recuperar imagens dos protestos no Nepal, como uma espécie de referência para manifestações populares que envolvam ataques diretos às dependências do Supremo em Brasília. </p> O antilulismo e a defesa de Flávio <p>A proximidade do primeiro turno das eleições de 2026 ampliou declarações explícitas de voto em Flávio Bolsonaro (PL) e mobilizações contra Lula (PT) nas redes evangélicas, segundo o levantamento. O pastor Cláudio Duarte tornou-se um dos expoentes do movimento “Lula não” ao publicar um vídeo que alcançou mais de 1 milhão de pessoas. </p> <p>Mochel afirmou que, nesse contexto, Mendonça também se tornou central como agente político do antilulismo. </p> <p>“A mensagem que as lideranças passam é a de que o cristão, para ser legítimo, não pode ser de esquerda. Precisa ser de direita. E Mendonça está materializando o lugar de uma liderança íntegra e associada ao bolsonarismo”</p> <p>Lorena Mochel</p> <p>antropóloga e assessora de pesquisa na Casa Galileia, em entrevista ao Nexo </p> <p>Em contrapartida, aparecem na defesa de Lula perfis como o do deputado federal André Janones (Rede-MG), liderança política com identidade evangélica e um dos maiores engajamentos das redes.</p> <p>Janones foi fundamental na campanha do presidente em 2022 e defende que o uso da linguagem nas redes sociais seja no mesmo tom utilizado pela extrema direita, com uma gramática de guerra e convocação.</p> <p>“Nos últimos relatórios, percebemos uma reação maior da esquerda na figura de André Janones, que está chamando as pessoas para serem soldados de Lula e resolver as eleições”, disse a antropóloga. </p> Ver esse post no Instagram <p>Um post compartilhado por Janones1813 (@andrejanones)</p> <p>Ataques ao bolsonarismo, associações de Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro — por conta do filme “Dark Horse” — e ênfase em pautas como o fim da escala 6×1 fazem parte da mobilização de Janones direcionada ao campo evangélico em defesa de Lula. </p> <p>O presidente, enquanto isso, tenta se aproximar dessa parcela do eleitorado. Na quarta-feira (16), ele se reuniu com pastores no Palácio do Planalto e criticou o uso da fé para fins políticos. Disse ainda que não vai fazer atos políticos em igrejas. “Toda vez que alguém me pede para ir numa igreja falar de política, eu não vou. Não vou porque respeito muito o compromisso individual que cada pessoa tem com Deus. Comício eu faço na rua”, afirmou. </p> <p>Já Flávio começou uma espécie de ofensiva evangélica ainda na pré-campanha, incluindo encontros reservados com lideranças religiosas e presença em cultos. </p> <p>“Flávio está sempre em igrejas e se vinculando aos evangélicos. Lula não visibiliza muito sua estratégia, e algumas ações, como Janja cantando um hino Gospel com o pastor Kléber Lucas [no lançamento da campanha], soam como forçadas ao campo evangélico”, disse Mochel. </p> <p>48%</p> <p>é a intenção de voto de evangélicos em Flávio Bolsonaro (PL), segundo pesquisa Datafolha realizada entre os dias 15 e 17 de setembro (registrada no TSE sob o número BR-04029/2026)</p> <p>26%</p> <p>é a intenção de voto de eleitores evangélicos em Lula (PT), segundo pesquisa Datafolha realizada entre os dias 15 e 17 de setembro (registrada no TSE sob o número BR-04029/2026)</p> <p>Para o cientista político Vinicius do Valle, pesquisador do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e autor do livro “Entre a religião e o lulismo”, a exaltação à figura de Mendonça em contraponto à de Moraes ajuda a dificultar a inserção do PT no campo evangélico. </p> <p>“Lula está sendo associado a Moraes, apesar de o ministro não ter sido indicado por ele. Num cenário em que a aproximação com o eleitorado evangélico já é difícil, isso trouxe algo a mais. Mas não é só por causa disso que Lula não consegue se aproximar dos evangélicos. Já existe uma predisposição de mais de uma década de afastamento desse segmento de Lula e do PT”, disse ao Nexo. </p>

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