O que os candidatos prometem para a saúde
<p>O ‘Nexo’ reúne as principais propostas dos presidenciáveis mais bem colocados nas pesquisas de intenção de voto. Ampliar uso de tecnologias é ideia comum entre os planos de governo</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/09/mutirao-hospitais-mc_abr_05072025-19.webp" type="image/webp" medium="image"> <media:title> mutirão de atendimentos a pacientes no Hospital Universitário de Brasília </media:title> <media:credit> Marcelo Camargo / Agência Brasil </media:credit> </media:content> <p>Os principais candidatos à Presidência da República prometem medidas para modernizar o sistema de saúde e reduzir a espera e as desigualdades no acesso a atendimento especializado. A inteligência artificial é citada em diversos casos como ferramenta para alcançar esses objetivos.</p> <p>As propostas, no entanto, não detalham fontes de financiamento ou como fortalecer a coordenação com estados e municípios. Para especialistas, esses fatores são centrais para equalizar um sistema de saúde que sustente o envelhecimento da população e o avanço de doenças crônicas.</p> <p>Neste texto, que integra uma série de conteúdos sobre planos de presidenciáveis, o Nexo elenca e analisa as principais propostas de seis candidatos para a saúde.</p> <p></p> <p></p> Lula: continuidade e defesa da soberania <p>Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirma em seu plano de governo que, num eventual quarto mandato, manterá o compromisso com ações para “contínua evolução” do SUS (Sistema Único de Saúde) e para “assegurar, de fato, o direito universal à saúde”.</p> <p>Seu programa foca em expandir políticas já existentes e ampliar a digitalização de dados de saúde. Também promete reunir esforços para o Complexo Econômico e Industrial da Saúde, estratégia lançada em julho com o objetivo de reduzir a dependência do país à importação de insumos médicos.</p> <p>Suas principais propostas incluem:</p> ampliar atendimentos especializados, mantendo parcerias com hospitais privados expandir o programa Farmácia Popular, incluindo exames laboratoriais gratuitos de diagnóstico e monitoramento para hipertensão e diabetes aumentar unidades de atendimento odontológico consolidar a rede pública de oncologia e agilizar emissão de laudos de biópsias feitas em regiões isoladas fortalecer o Complexo Econômico e Industrial da Saúde com novas tecnologias para desenvolvimento de insumos diversos <p>Lula também promete consolidar o prontuário único do cidadão, documento eletrônico lançado em 2013, mas sem permitir que os dados fossem compartilhados entre as unidades de saúde. Em 2024, o Ministério da Saúde implementou uma integração digital de sistemas, o que permitiu à rede nacional de saúde acessar o histórico de pacientes. Num eventual quarto mandato, o candidato do PT pretende ampliar o acesso à tecnologia pelo celular, facilitando agendamentos e a visualização de resultados de exames.</p> <p>Segundo Julia Pereira, doutora em políticas públicas pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e gerente de relações institucionais do Ieps (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde), as propostas do presidente parecem executáveis em primeiro plano, embora não haja “nada de muito inovador”.</p> <p>“Lula promete, em praticamente o programa inteiro, ampliar, continuar e melhorar [programas e políticas existentes], o que é natural vindo de um governo de continuidade”, disse ao Nexo.</p> <p>Fernando Hellmann, doutor em saúde coletiva e professor no departamento de saúde pública da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), concorda que as propostas são factíveis, mas pontuou que há gargalos em programas como o que amplia o acesso a atendimento especializado.</p> <p>Para ele, a proposta “é interessante, porém paliativa”, pois não age diretamente para ampliar ou melhorar a infraestrutura física e pessoal de estados e municípios. </p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2025/06/Fabio-Rodrigues-Pozzebom_Agencia-Brasil.webp" type="image/webp" medium="image"> <media:title> Lançamento do programa “Agora Tem Especialidades” </media:title> <media:credit> Fabio Rodrigues-Pozzebom / Agência Brasil </media:credit> </media:content> <p>De acordo com o professor, a continuidade das parcerias com a rede privada para viabilizar o programa de atendimento especializado também merece atenção, pois as colaborações não ampliam de fato o financiamento público da saúde. </p> <p>Especialistas já haviam criticado a estratégia em 2025 — quando foi instituída por medida provisória para autorizar o abatimento de dívidas de instituições parceiras e uso de créditos financeiros —, afirmando que, ao compensar tributos, o governo deixa de arrecadar receitas e aplicá-las em outras áreas, como a educação.</p> Flávio: unificação tecnológica <p>Flávio Bolsonaro (PL) promete para a saúde um sistema que valorize a eficiência e a prevenção.</p> <p>O programa do senador inclui propostas como:</p> aplicação de inteligência artificial para agilizar o agendamento de consultas e exames, identificando pessoas em maior risco uso da capacidade ociosa privada com a contratação de exames e serviços para reduzir filas reajuste da remuneração de serviços do SUS para cobrir os custos reais de santas casas e hospitais filantrópicos criação de programas de atenção a idosos, pessoas com deficiência ou doenças crônicas, com vistas domiciliares e entrega de medicamentos implementação de unidades móveis focadas na saúde da mulher, para levar exames preventivos de câncer, endometriose e pré-natal a regiões remotas e ribeirinhas <p>Outro ponto defendido pelo candidato é a unificação tecnológica do sistema público, a partir da criação de um prontuário eletrônico único vinculado ao CPF e integrado ao Gov.br (plataforma digital oficial do governo) — semelhante à proposta de Lula. Segundo o plano de governo de Flávio, o prontuário será interoperável entre as redes pública e privada. O documento também prevê a implementação de um histórico unificado de consultas, exames, vacinas e receitas dos pacientes.</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2024/07/cuidado-idosos-.webp" type="image/webp" medium="image"> <media:title> Idosa recebe abraço de profissional da saúde </media:title> <media:credit> Rafa Neddermeyer / Agência Brasil </media:credit> </media:content> <p>Para os especialistas ouvidos pelo Nexo, essa e outras propostas — como os programas de atenção à mulher e focados em atendimento domiciliar — não inovam. “O prontuário vinculado ao CPF já existe, o cadastro já é o número obrigatório do SUS desde 2025”, disse Pereira.</p> <p>Já a proposta de corrigir a tabela SUS é necessária e acertada, segundo Pereira e Hellmann. No entanto, Flávio não detalha a fonte para financiar a promessa. “Além disso, mais uma vez, o candidato foca nos hospitais filantrópicos e pouco menciona a rede própria do SUS”, disse o professor da UFSC.</p> Augusto Cury: inteligência artificial e saúde mental <p>A inteligência artificial ocupa papel central nas promessas de Augusto Cury (Avante) para o SUS. “Queremos transformar o Brasil no maior centro de telemedicina do mundo”, prevê o candidato.</p> <p>Seu plano de governo propõe, de modo geral, democratizar o acesso a serviços e ampliar o cuidado à saúde mental.</p> <p>Suas principais propostas para a saúde envolvem:</p> criar uma plataforma pública de medicina digital com meta nacional de atendimento virtual em até 30 minutos usar sistemas de IA na triagem clínica inicial, classificando automaticamente os riscos dos pacientes integrar a saúde mental ao cuidado físico, disponibilizando exercícios de respiração e suporte psicológico para pacientes que aguardam atendimento criar rede de prevenção ao câncer, com comitês regionais multidisciplinares e ações de educação e gestão da emoção estimular cooperativas de saúde para ampliar atendimentos e comprar medicamentos diretamente da indústria implementar ações para acolhimento permanente e integrado de pessoas neurodivergentes <p>Na avaliação de Pereira, a proposta de usar atendimento digital não necessariamente reduz filas como pretendido. “Cury acredita que a telemedicina resolveria o problema, mas muitas vezes o gargalo está nas filas de exames. Se não há profissionais suficientes para fazer esses atendimentos, a questão não se resolve”, disse.</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/09/mutirao-hospitais-mc_abr_05072025-3.webp" type="image/webp" medium="image"> <media:title> Atendimentos a pacientes do SUS em Brasília </media:title> <media:credit> Marcelo Camargo / Agência Brasil </media:credit> </media:content> <p>Hellmann destacou que a proposta de Cury em acolher de forma integrada pessoas neurodivergentes pode render avanços importantes no tema. No entanto, para o professor, não é suficiente – seria necessário aprimorar os processos de avaliação e diagnóstico.</p> <p>2,4 milhões </p> <p>de pessoas com transtorno do espectro autista, principal neurodivergência, foram contabilizadas pelo Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 2022, primeiro e mais recente levantamento sobre o tema</p> Renan Santos: IA e inspiração em El Salvador <p>A agenda de Renan Santos (Missão) para a saúde prioriza reformas baseadas em tecnologia aplicada e mecanismos para tornar a gestão do sistema de saúde mais eficiente. Um deles é integrar sistemas digitalmente, combinando telemedicina, diagnósticos apoiados por IA, monitoramento clínico e conexões diretas entre clínicas, laboratórios e farmácias.</p> <p>A proposta, segundo seu plano de governo, é parcialmente inspirada no DoctorSV, sistema de saúde digital implementado em El Salvador em novembro de 2025 após uma parceria entre o Google e o Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe. A iniciativa incorpora inteligência artificial para apoiar médicos em diagnósticos — prática que avança a passos largos no Brasil, regulamentada pelo CFM (Conselho Federal de Medicina) em fevereiro.</p> <p>O programa do candidato promete ainda:</p> substituir o modelo cronológico de fila por uma escala nacional que priorize pacientes com base em critérios como gravidade clínica, risco de progressão e perda da capacidade de trabalho criar um prontuário unificado digital com informações acessíveis em tempo real desenvolver vigilância epidemiológica preditiva e em tempo real centralizar demandas complexas em centros regionais de referência condicionar repasses do Fundo Nacional de Modernização do Acesso aos municípios com base em metas de desempenho <p>Assim como nos planos de governo de Flávio e Cury, parte das propostas de Renan já são de praxe no sistema de saúde — especialmente aquelas relacionadas à criação de um prontuário único.</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/09/revalida_mcamgo_abr_100720211818.webp" type="image/webp" medium="image"> <media:title> Profissional segurando estetoscópio </media:title> <media:credit> Marcelo Camargo / Agência Brasil </media:credit> </media:content> <p>“Não precisamos inventar o conceito. O que falta é, de fato, conectar todos os sistemas para que possamos operar uma fila única e não várias filas paralelas. Cada lugar opera de um jeito e resolver como integrar essa informação é muito mais importante do que falar e fazer coisas que a normativa já traz”, disse Pereira.</p> <p>Ela pondera ainda que a promessa de integração de dados públicos com a rede privada pode ser “irreal”. “Dados de saúde valem dinheiro. Achar que a iniciativa privada vai, por conta própria, integrar os seus dados com o setor público, desconsiderando essas nuances, é muito complicado”, afirmou.</p> <p>Hellmann pontuou que o financiamento condicionado ao desempenho desafia os diferentes contextos existentes no país. “Embora possa ser um dos critérios, não pode ser o único. Seria contrário ao princípio da equidade. Os lugares mais necessitados nem sempre são os com melhores desempenhos”, disse.</p> Ronaldo Caiado: articulação e acompanhamento individual <p>Ronaldo Caiado (PSD) foca em modernizar o SUS, com a promessa de torná-lo mais integrado, preventivo, digital e orientado por resultados. Em um eventual mandato no Planalto, o ex-governador de Goiás promete que “preservará os princípios do SUS, mas mudará sua capacidade de entrega”.</p> <p>Para isso, as principais propostas do candidato são:</p> vincular cada cidadão a uma equipe de referência com acompanhamento ativo de doenças crônicas conectar UBSs (Unidades Básicas de Saúde) a especialistas por meio de teleconsultoria criar um supercentro de telediagnósticos de câncer para agilizar laudos de biópsias em áreas remotas implementar uma aliança nacional para conectar universidades, laboratórios públicos e a indústria para produzir medicamentos de alto custo, vacinas e terapias avançadas localmente construir uma identidade clínica digital para o SUS, incluindo aplicativo nacional do cidadão, e modernizar hospitais públicos implementar sistema de hemodinâmica regional, aprimorando unidades móveis para atendimento rápido de infarto e AVC (acidente vascular cerebral) <p>Na avaliação de Hellmann, a proposta de Caiado em vincular cada cidadão a uma equipe de saúde é interessante, mas falha em não apresentar caminhos para torná-la factível. “Seria o sonho do SUS e da universalidade. Porém, como alcançar isso não está claro, já que o candidato não aborda a questão da força de trabalho”, disse.</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2025/10/29698800245_4361fd8aed_k.webp" type="image/webp" medium="image"> <media:title> Exame de mamografia no Hospital Regional da Asa Norte, em Brasília (DF) </media:title> <media:credit> Rodrigo Nunes / Ministério da Saúde 15.09.2016 </media:credit> </media:content> <p>Pereira destacou que o plano do candidato é o único que prevê metas e reconhece lacunas na articulação entre União, estados e municípios como um problema a ser enfrentado, embora não seja uma tarefa fácil de resolver. “Apesar de muitas vezes parecer uma questão menor, é um dos principais gargalos de todas essas propostas”, afirmou.</p> <p>Tanto ela quanto o professor da UFSC avaliaram a proposta de criar linhas de cuidado para pacientes cardíacos como positiva. “É bem interessante num cenário de envelhecimento populacional, no qual esses problemas tendem a acontecer mais. É algo que realmente não aparece nos outros planos”, disse Pereira.</p> Romeu Zema: aposta em parcerias privadas <p>Romeu Zema (Novo) propõe para a área da saúde mais eficiência administrativa e medidas de descentralização de serviços, com redução do papel do Estado. Também defende parcerias com o setor privado.</p> <p>“O setor privado, que tem estrutura e capacidade ociosa, é subutilizado para desafogar o sistema público e o excesso de regulação e a judicialização encarecem a saúde suplementar e empurram ainda mais pessoas para o SUS”, defendeu o candidato em seu plano de governo.</p> <p>Se eleito, o governador mineiro promete:</p> firmar parcerias com clínicas e hospitais privados para reduzir filas de consultas, exames e cirurgias, aproveitando a capacidade ociosa construir e gerir UPAs (unidades de pronto atendimento), hospitais e serviços especializados por meio de concessões, parcerias público-privadas e acordos com organizações sociais ampliar o credenciamento e financiamento público de clínicas e profissionais do setor privado para o tratamento de pessoas com TEA (transtorno do espectro autista) unificar o histórico clínico de pacientes por meio de prontuário eletrônico com interoperabilidade entre sistemas públicos e privados vincular incentivos financeiros estaduais e municipais ao desempenho conter a judicialização da saúde pública e suplementar modernizar o marco regulatório da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) para permitir planos de saúde com coberturas diferenciadas e flexíveis <p>“Considerando os princípios de universalidade, integralidade e equidade do SUS, um dos principais problemas da proposta de Zema é a ênfase extensiva em parcerias com o setor privado”, disse Hellmann.</p> <p>Para o professor, parte das promessas de Zema pode ampliar desigualdades entre municípios e famílias. É o caso da possível ampliação da assistência a pessoas com TEA via oferta privada.</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/09/1115701-capa_tnrgo_abr_0804181179.webp" type="image/webp" medium="image"> <media:title> Caminhada do Dia Mundial da Conscientização do Autismo, no Rio de Janeiro </media:title> <media:credit> Tânia Rêgo / Agência Brasil </media:credit> </media:content> <p>“Esses serviços tendem a ser mais caros e concentrados nos grandes centros urbanos. Seria mais adequado priorizar o fortalecimento e a qualificação da rede pública, especialmente da atenção primária à saúde, tanto para o cuidado quanto para a identificação das necessidades e o encaminhamento adequado aos serviços especializados”, disse.</p> <p>Pereira também destacou que há um equívoco em propôr alterações no marco regulatório da ANS para permitir coberturas flexíveis — a exemplo dos planos de saúde que oferecem apenas atendimento ambulatorial, sem internação.</p> <p>“A ideia é que esses planos ambulatoriais não cubram internação, ficando mais baratos e jogando o que é mais caro para o SUS. Numa situação onde 70% dos planos são empresariais, existe a possibilidade de rebaixamento para esses planos [flexíveis]”, disse.</p>
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| Candidato | Sentimento |
|---|---|
| Flávio Bolsonaro | neutro |
| Lula | neutro |