Sem embaixador: os canais do Brasil com EUA e Argentina agora
<p>Ataques de Javier Milei geram respostas da diplomacia brasileira. Impasse com os EUA se mantém por demora na concessão do agrément ao indicado de Donald Trump para a embaixada em Brasília</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/08/Lula-e-daniel-raimond-argentina.webp" type="image/webp" medium="image"> <media:title> Luiz Inácio Lula da Silva e o embaixador argentino Guillermo Daniel Raimondi </media:title> <media:credit> Ricardo Stuckert / PR </media:credit> </media:content> <p>O embaixador da Argentina no Brasil, Guillermo Daniel Raimondi, voltou ao seu país no domingo (9) após o rebaixamento das relações diplomáticas entre as nações vizinhas. Agora, a representação argentina está a cargo da chefe de chancelaria María Emilia Cortés. </p> <p>Ao mesmo tempo, o Brasil está num impasse diplomático com os Estados Unidos desde a revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti em 4 de agosto. O governo de Donald Trump justificou a medida dizendo que o Brasil não concedeu a aprovação para que o indicado pelo republicano assuma a embaixada em Brasília.</p> <p>Neste texto, o Nexo explica qual é o papel de um embaixador e como ficam as relações diplomáticas entre o Brasil e os dois países a partir de agora. </p> O que faz um embaixador <p>Embaixador é o chefe de uma missão diplomática, ou seja, de embaixadas e representações junto a organismos internacionais. Ele representa seu país no exterior e pode celebrar tratados entre os Estados. É considerado a autoridade máxima na representação da agenda político-diplomática de um país. </p> <p>Ele é a figura que estabelece os diálogos de alto nível entre as nações e faz a interlocução entre as figuras de alto escalão dos governos. É ainda a figura que lidera a mediação de crises que venham a acontecer entre dois países.</p> <p>No Brasil, a Lei nº 11.440/2006 guia o regime jurídico dos servidores brasileiros no exterior. Segundo o texto, um embaixador deve ser escolhido entre ministros de primeira classe, que é o cargo máximo da diplomacia brasileira. A experiência mínima exigida é de ao menos 20 anos de carreira no Itamaraty, sendo 10 anos de atuação no exterior. </p> <p>A função do embaixador é tanto simbólica quanto prática, segundo Carolina Pavese, doutora em relações internacionais pela London School of Economics e professora da FIA Business School e IMT (Instituto Mauá de Tecnologia). </p> <p>A função não é insubstituível: na sua ausência, os encarregados de negócios — que já executam e partilham boa parte das funções com o embaixador nas agendas bilaterais — assumem suas funções. </p> <p>“Mas a ausência de um embaixador tem um peso simbólico. É uma perda de prestígio nas relações ou uma manifestação de que há desavenças em curso”, afirmou Pavese ao Nexo.</p> A situação com a Argentina <p>O Brasil e a Argentina mantêm relações diplomáticas há mais de 200 anos. Junto com o Uruguai e o Paraguai, os países são fundadores do Mercosul, bloco econômico sul-americano criado em março de 1991. </p> <p>Apesar de períodos de maior distanciamento — a exemplo dos governos Jair Bolsonaro (PL) no Brasil e Alberto Fernández na Argentina, quando os líderes não fizeram reuniões bilaterais por diferenças ideológicas —, os acordos entre os dois países seguiram sem intercorrências nestes dois séculos. </p> <p>Desde que Javier Milei assumiu o governo argentino, em dezembro de 2023, a relação com Lula foi ruim.</p> <p>O presidente argentino é conectado com a extrema direita brasileira. Antes mesmo de convidar Lula para sua posse, ele fez o convite a Bolsonaro — que, mesmo já sendo ex-presidente, foi à Casa Rosada e se sentou ao lado de chefes de Estado. O Brasil foi representado na ocasião pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. </p> <p>Milei já havia feito ataques públicos a Lula antes, mas a crise escalou em 25 de julho, quando ele esteve na convenção que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato do PL à Presidência da República. </p> <p>Na ocasião, ele se referiu ao presidente brasileiro como “ladrão” e “presidiário” e acusou o governo de ter financiado uma campanha contra a Argentina durante a Copa do Mundo. </p> <p>Milei também chamou o ministro Alexandre Moraes de “lixo careca” por não ter autorizado que ele visitasse Bolsonaro na prisão domiciliar.</p> <p>Depois das ofensas, Mauro Vieira se reuniu com o embaixador do Brasil na Argentina, Julio Bitelli. O chanceler também se encontrou com Daniel Raimondi — o mais alto diplomata argentino em território nacional — para “transmitir a repulsa” do governo federal às declarações de Milei.</p> <p>Após as reuniões, o presidente argentino voltou a dizer numa entrevista à emissora LN+ que Lula é “corrupto” e “não é inocente”. O governo brasileiro considerou os ataques insustentáveis e rebaixou na quarta-feira (5) o nível de relações diplomáticas com a Argentina. </p> <p>Raimondi voltou ao país no domingo (9), e a representação argentina ficou a cargo da chefe de chancelaria María Emilia Cortés. Apesar do rebaixamento, não há um rompimento entre os dois países, e as relações comerciais continuam. </p> A situação com os EUA <p>Desde 2025, as relações entre o governo Trump e Lula azedaram. O presidente dos EUA tem atacado o Brasil com tarifas, retirada de vistos e sanções individuais a ministros do Supremo Tribunal Federal.</p> <p>O indicativo era de que as relações melhorariam após os dois chefes de Estado se encontrarem na Assembleia Geral da ONU em setembro de 2025. Houve uma breve trégua, mas, em 2026, as interferências dos EUA no Brasil se intensificaram.</p> <p>Em maio, por exemplo, o Departamento de Estado americano designou as facções criminosas PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas — o que abre margem para intervenções militares e financeiras dos EUA no Brasil. </p> <p>Dois meses depois, o USTR (Escritório do Representante Comercial dos EUA) impôs uma sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, sob o argumento de que o país mantém práticas comerciais “desleais”. Também aplicou uma tarifa adicional de 12,5% como parte de uma investigação comercial aberta pelos EUA sobre falhas da comunidade global no combate ao trabalho escravo.</p> <p>37,5%</p> <p>é a somatória das duas tarifas</p> <p>Já na última retaliação, em 4 de agosto, o governo Trump revogou o visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti — uma medida sem precedentes na relação entre os dois países.</p> <p>Em conversa com jornalistas, um porta-voz do Departamento de Estado americano afirmou que a revogação ocorreu pela demora na concessão do agrément (aprovação formal) do governo brasileiro a Daniel Pérez, aliado do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio.</p> <p>Pérez foi indicado para as funções de embaixador americano no Brasil em junho e aprovado pelo Senado americano. </p> <p>Nenhum Estado, no entanto, é obrigado a conceder a autorização e não há um prazo estabelecido para resposta.</p> <p>Segundo a Convenção de Viena, é preciso que o país se certifique com o outro de que o nome que pretende indicar para chefiar a missão diplomática vai obter o agrément. Os Estados Unidos não fizeram isso, e o Brasil considerou a quebra de protocolo desrespeitosa. </p> A crise com os dois países <p>Na avaliação de Vinicius Tavares de Oliveira, professor do Departamento de Relações Internacionais da PUC Minas (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais), a crise diplomática entre Brasil, EUA e Argentina tem como pano de fundo o processo eleitoral brasileiro. </p> <p>Há uma ligação ideológica entre Trump, Milei e Flávio Bolsonaro, ao passo que Lula é um dos poucos líderes de esquerda hoje na América Latina, que vem sendo tomada pela extrema direita. </p> <p>“É uma tempestade perfeita: as forças políticas brasileiras, norte-americanas e argentinas necessitam disso para se viabilizar”, afirmou Oliveira ao Nexo. </p> <p>Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, o governo brasileiro acredita que Trump e Milei estão fazendo uma “dobradinha” para tumultuar a eleição em outubro no Brasil e ajudar Flávio. Tanto que existe temor por parte das autoridades brasileiras de que a indicação de Pérez tenha a ver com uma possível interferência no pleito. </p> <p>Na tentativa de se proteger dos ataques, Lula tem buscado outros líderes de direita da América Latina para estabelecer diálogo. Na sexta-feira (7), o chanceler Mauro Vieira entregou uma carta do presidente brasileiro a Abelardo de la Espriella na sua posse como novo presidente da Colômbia — uma sinalização de que o Planalto tem o objetivo de estabelecer relações frutíferas e pragmáticas. </p> <p>Segundo Oliveira, Lula e Flávio também mobilizaram temas ligados aos Estados Unidos e Argentina na pré-campanha e devem continuar a usá-los até outubro.</p> <p>Enquanto o senador cita como exemplo a ser seguido indicadores como redução da inflação na Argentina — tema importante no Brasil por ativar o trauma da hiperinflação dos anos 1980 —, o presidente fala sobre como a política econômica de Milei trouxe empobrecimento aos argentinos. </p> <p>“Em relação aos EUA, Flávio quer sinalizar que tem ao seu lado o presidente da maior potência econômica do mundo e que isso vai promover um acesso privilegiado do Brasil. Já Lula foca em dizer que as atitudes do seu oponente ferem a soberania nacional”, disse Oliveira. </p> <p>Para Pavese, a agenda de política externa do Brasil com os EUA tem sido ocupada por uma gestão de crise no segundo mandato de Trump, o que faz com que haja pouco avanço no fortalecimento das relações. </p> <p>“Estados Unidos e Argentina são parceiros estratégicos nos nossos interesses. [Com a situação de agora], fica comprometida a imagem do Brasil de ser um interlocutor que dialoga com várias potências e países, inclusive com posicionamentos ideológicos distantes do atual governo. Ao mesmo tempo, a reação a esses ataques é um exercício de soberania e de demonstração de autonomia do Brasil”, disse. </p>
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| Candidato | Sentimento |
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| Lula | neutro |