ANÁLISE DE COBERTURA

Qual dano Milei causa ao ofender autoridades brasileiras no Brasil

nexo · 27/07/2026 ·analise

<p>Declarações agressivas do presidente argentino estremecem relações entre países. Ele participou da convenção que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro ao Planalto</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/07/milei2.webp" type="image/webp" medium="image"> <media:title> Javier Milei discursa em evento no PL que oficializa a candidatura de Flávio Bolsonaro </media:title> <media:credit> Reprodução / YouTube/Terra Brasil 25.07.2026 </media:credit> </media:content> <p>O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, se reuniu nesta segunda-feira (27) com o embaixador do Brasil na Argentina, Julio Bitelli, para tratar das ofensas feitas por Javier Milei a autoridades brasileiras. Na véspera, o chanceler encontrou Daniel Raimondi, o mais alto diplomata argentino em território nacional, para “transmitir a repulsa” do governo federal com relação às declarações do presidente do país vizinho. </p> <p>No sábado (25), Milei participou da convenção que oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência. Na ocasião, chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de “presidiário” e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes de “lixo careca”.</p> <p>Neste texto, o Nexo resume as ações e reações de parte a parte, analisa a interferência na política interna do Brasil e fala dos potenciais impactos para as relações entre os países.</p> A crise diplomática <p>No sábado (25), durante a convenção que oficializou a candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em São Paulo, Milei se referiu ao presidente Lula como “presidiário” e “ladrão” e ao ministro do STF Alexandre de Moraes como “lixo careca”, sem nomeá-los.</p> <p>🇧🇷Pres. @JMilei ofende a la basura de todo el mundo al compararla con el juez brasileño Alexandre de Moraes.</p> <p>Moraes fue responsable de la muerte de Clezão y de encarcelar a cientos de inocentes, incluido @jairbolsonaro para impedir que se presentara a las elecciones de este año. pic.twitter.com/y6ziakzW4O</p> <p>— Eduardo Bolsonaro🇧🇷 (@BolsonaroSP) July 25, 2026</p> <p></p> <p>“O lixo careca não me permitiu visitar meu amigo, injustamente encarcerado, quando sei que Lula cansou de receber dirigentes do exterior quando estava preso, entre eles o nefasto ex-presidente argentino Alberto Fernández”, disse Milei.</p> <p>Moraes negou em 18 de julho o pedido de visita de Milei a Jair Bolsonaro (PL), preso em regime domiciliar em Brasília por tentativa de golpe de Estado. Por reiteradas violações das medidas condicionais, o ex-presidente está proibido de receber qualquer tipo de visita por 30 dias.</p> <p>Em nota, o ministro Edson Fachin, presidente do STF, afirmou que Milei fez uma “referência desrespeitosa a magistrado da mais alta Corte do País, feita em solo brasileiro, por ato jurisdicional praticado conforme a Constituição e as leis da República Federativa do Brasil”. Ele classificou as declarações como incompatíveis com a civilidade.</p> <p>O Itamaraty chamou no domingo (26) para consultas seu embaixador em Buenos Aires, Julio Bitelli. Nas relações internacionais, essa é uma medida para sinalizar repúdio ou forte desaprovação por alguma atitude. O órgão também convocou o representante diplomático argentino no Brasil, embaixador Daniel Raimondi, para “transmitir a repulsa do governo brasileiro aos impropérios emitidos” por Milei.</p> <p>“Não há precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, enfeixe agressões e ofensas ao Chefe de Estado, às instituições democráticas, inclusive ao Poder Judiciário, e ao povo brasileiro. É especialmente lamentável que esse episódio infamante envolva o presidente de um país com que o Brasil mantém 203 anos de amizade e cooperação e que tem, no Brasil, o seu principal sócio comercial”</p> <p>Ministério das Relações Exteriores</p> <p>Em nota sobre a “agressão do presidente da Argentina em território brasileiro”</p> <p>O chanceler brasileiro Mauro Vieira afirmou no domingo (26) à TV Globo que as declarações de Milei foram “ríspidas, grosseiras e inaceitáveis”. Ele classificou ainda como uma “interferência” em assuntos domésticos.</p> <p>“Essas declarações foram críticas de uma forma muito agressiva ao governo brasileiro, ao povo brasileiro, às instituições, ao Executivo, ao Legislativo e ao próprio Presidente da República. Foi uma interferência em assuntos domésticos, em assuntos nacionais”, afirmou Vieira.</p> <p>Milei dobrou a aposta. Em entrevista à Rádio Mitre, da Argentina, o presidente do país vizinho acusou o “governo do Brasil” de ter financiado uma suposta “campanha anti-argentina”, sem apresentar provas.</p> <p>O governo argentino não pretende pedir desculpas oficiais ao brasileiro, segundo informações de bastidores do jornal argentino La Nación. Uma fonte afirmou ao jornal que não se manifestar mais pode ser uma forma de baixar a temperatura da tensão.</p> <p>Ao ser questionado por jornalistas sobre a crise com Milei, Lula ironizou. “Quem é esse cara?”, respondeu. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, chamou Milei de “palhaço” em entrevista à Rádio Jornal. Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral da Presidência, disse no X que Milei é “uma caricatura patética, que envergonha o cargo que ocupa” e um “puxa-saco” de Donald Trump.</p> A interferência de Milei <p>Para Feliciano Guimarães, professor do IRI-USP (Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo), a atitude de Milei foi uma tentativa de interferência na política brasileira. “É o modus operandi da extrema direita no mundo todo: entrar diretamente no jogo político dos países para potencializar seus candidatos em detrimento dos candidatos adversários”, afirmou ao Nexo.</p> <p>Nessa linha, o exemplo maior vem dos Estados Unidos. Desde o retorno à Casa Branca para o seu segundo mandato em 2025, Donald Trump tem colocado em prática uma releitura da Doutrina Monroe, política de ingerência regional do século 19 que coloca a região sob a zona de influência americana. Diante disso, ele tem interferido em eleições de outros países, com ameaças ou manifestação de apoio a candidatos com os quais possui alinhamento ideológico.</p> <p>Candidatos de extrema direita que tiveram apoio do americano — como Nasry Asfura, em Honduras, e Abelardo de la Espriella, na Colômbia — venceram seus pleitos. O apoio de Trump a Milei também surtiu efeito positivo para o partido do argentino nas eleições legislativas. Milei, por sua vez, manifestou apoio a De la Espriella na Colômbia, a Keiko Fujimori no Peru e a José Antonio Kast no Chile.</p> Assine nossa newsletter diária <p>Gratuita, com os fatos mais importantes do dia para você</p> bi <p>Todos esses políticos venceram as eleições em seus países. Essa ascensão de governos de direita e de extrema direita na América Latina tem sido chamada de Onda Azul, em contraposição à Onda Rosa, quando líderes de esquerda ascenderam ao poder na região no início dos anos 2000.</p> <p>Regiane Bressan, professora de relações internacionais da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), destacou que a Onda Azul que paira sobre a região, o retorno de Trump e a dimensão do Brasil explicam esse interesse nas eleições brasileiras, previstas para outubro. “Agora, as eleições brasileiras se tornam o grande alvo”, disse ao Nexo.</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2025/10/milei-trump1_batcheditor_fotor.webp" type="image/webp" medium="image"> <media:title> Javier Milei e Donald Trump após reunião na Casa Branca </media:title> <media:credit> Reprodução / X/@JMilei 14.10.2025 </media:credit> </media:content> <p>Bressan explicou que o Brasil, com seu peso político e tradição na política externa, acaba gerando um incômodo no governo americano. “Os EUA querem e têm atuado com ingerência em suas relações regionais. Alguns países se curvam muito rapidamente. No caso do Brasil, existe essa tentativa de defender a autonomia e a soberania”, disse.</p> <p>Do lado da Argentina, o professor de ciência política e relações internacionais da Universidade da República Camilo López Burian chama de “trumpismo subalterno” o alinhamento automático de Milei ao presidente americano, em detrimento dos interesses do próprio país.</p> Os impactos da crise nas relações <p>Historicamente, o Brasil é o maior parceiro comercial da Argentina. E a Argentina é atualmente o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, atrás da China e dos EUA. Os dois países são os principais aliados na construção e manutenção do Mercosul, bloco econômico do Cone Sul.</p> <p>Considerando ainda que os países dividem fronteiras, há importância mútua na manutenção da relação diplomática e comercial.</p> <p>Segundo Guimarães, as tratativas do Mercosul continuam caminhando com outros países e blocos — como Singapura, Canadá, Japão e União Europeia, mas podem estagnar. “Não há nenhuma nova iniciativa”, disse Guimarães. Ele acrescentou que o risco é o bloco sul-americano se tornar inoperante por falta de consenso nas negociações.</p> <p>“O desejo máximo do [secretário de Estado americano, Marco] Rubio é quebrar o Mercosul e isolar o Brasil. Deixar que essa crise escale a ponto de paralisar totalmente o Mercosul cai como uma luva para os interesses americanos”, diz o professor da USP.</p> <p>Já Bressan, da Unifesp, destacou que, apesar da retórica de Milei, as relações entre Brasil e Argentina são longas e sólidas e “as elites econômicas vão driblar essa situação porque elas têm interesses econômicos e de comércio entre os dois países”. “Entendo que não teremos grandes impactos nas nossas relações”, ponderou.</p>

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