Como as alternativas da direita se movem após ‘Dark Horse’
<p>Pré-candidatos tentam se viabilizar como opção a Flávio Bolsonaro depois da revelação das conversas entre o senador e Daniel Vorcaro. Piso alto de votos no bolsonarismo e no PT atrapalha os planos</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/05/IMG_0956-scaled.jpg" type="image/jpeg" medium="image"> <media:title> Romeu Zema (à esq.) e Ronaldo Caiado (à dir.) participam de evento sobre comércio internacional em Goiânia </media:title> <media:credit> André Cruz / Digital MG/Agência Minas - 04.SET.2025 </media:credit> </media:content> <p>As intenções de voto em Flávio Bolsonaro (PL) caíram nas cinco pesquisas de opinião divulgadas depois que conversas entre ele e Daniel Vorcaro foram reveladas pelo The Intercept Brasil no dia 13 de maio. O presidenciável teria pedido dinheiro ao dono do Banco Master para bancar a cinebiografia do pai, “Dark Horse”.</p> <p>R$ 61 milhões</p> <p>foram desembolsados por Vorcaro para o filme</p> <p>A redução nos percentuais no pré-candidato do PL deu esperança a outros nomes da direita que desejam abocanhar votos do bolsonarismo nas eleições de 2026: os ex-governadores de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), e de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), que cogitam uma aliança, e Renan Santos (Missão), que lidera entre os jovens.</p> <p>Neste texto, o Nexo mostra como esses nomes estão posicionados nas pesquisas e analisa com cientistas políticos a viabilidade de suas candidaturas vingarem, agora ou em eleições futuras.</p> Os danos de ‘Dark Horse’ <p>O The Intercept Brasil publicou no dia 13 de maio reportagens com mensagens — de texto e áudio — que mostram o filho mais velho de Jair Bolsonaro (PL) pedindo quantias vultosas de dinheiro a Daniel Vorcaro para financiar “Dark Horse”, filme sobre o ex-presidente com previsão de lançamento para setembro. As mensagens foram trocadas de dezembro de 2024 a novembro de 2025, quando as suspeitas sobre as operações do Master já eram de conhecimento público.</p> <p>Segundo o Intercept, o banqueiro pagou R$ 61 milhões ao filme, mas havia prometido R$ 134 milhões. O orçamento se iguala ao de superproduções de Hollywood e é superior a dois sucessos nacionais recentes, como “O agente secreto” (2025), de Kléber Mendonça Filho, que custou R$ 28 milhões, e o premiado no Oscar “Ainda estou aqui” (2024), de Walter Salles, que custou R$ 45 milhões.</p> <p></p> <p>Até as mensagens serem reveladas, Flávio buscava se esquivar de qualquer conexão com o Master, tendo garantido a membros de sua campanha que o assunto não o atingiria. Pouco antes de o Intercept publicar a reportagem, um repórter do site o questionou pessoalmente sobre o tema. Ele riu, disse que era mentira e chamou o jornalista de “militante”.</p> <p>O que se viu a seguir foi uma sucessão de contradições de Flávio e de outros envolvidos no filme: </p> Flávio divulgou um vídeo admitindo que conhecia Vorcaro e suas mensagens eram apenas “um filho buscando financiamento privado para o filme do pai” A Go Up Entertainment, produtora do filme, disse que não recebeu dinheiro de Vorcaro, assim como o produtor-executivo do longa, o deputado federal e ex-ator Mário Frias (PL-SP); depois, ambos voltaram atrás O senador disse à GloboNews que havia um contrato de confidencialidade em “Dark Horse”, por isso omitiu sua relação com Vorcaro <p>A mudança de versões e a conexão direta de Flávio com o pivô da maior fraude ao sistema financeiro da história do país geraram mal-estar imediato em sua campanha e dentro do seu partido, o PL, que exigiu que ele se reunisse com congressistas da legenda. O encontro ocorreu no dia 19 de maio.</p> <p>Depois da reunião, veio uma nova informação inédita: Flávio disse que visitou Vorcaro após o banqueiro ser liberado de sua primeira prisão, em novembro de 2025, na Operação Compliance Zero, que apura as fraudes do Master. O senador afirmou que foi ao encontro do banqueiro — que estava usando tornozeleira eletrônica — para dar um “ponto final nessa história”.</p> <p>57%</p> <p>é a porcentagem de brasileiros que afirmam que o caso ‘Dark Horse’ vai prejudicar a campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência, de acordo com pesquisa Meio/Ideia divulgada na quinta-feira (28)</p> <p>No mesmo dia, foi divulgado o primeiro levantamento de intenção de voto realizado inteiramente após o escândalo. </p> <p>De acordo com pesquisa Atlas/Bloomberg realizada com 5.032 eleitores via recrutamento digital, Flávio caiu seis pontos percentuais no segundo turno em comparação ao levantamento de abril, quando ele e Lula estavam tecnicamente empatados.</p> <p>No mês anterior, o senador aparecia numericamente à frente do petista, com 47,8% ante 47,4% de Lula. Depois do caso “Dark Horse”, Lula pontuou 48,9% no segundo turno, e Flávio, 41,8%</p> <p>O senador e presidenciável também piorou o desempenho nas seguintes pesquisas: </p> Futura/Apex, divulgada no dia 22 de maio, que mostrou Lula com 47,4% e Flávio com 42,2% no segundo turno BTG/Nexus, divulgada no dia 25 de maio, que mostrou Lula com 47% e Flávio com 43% no segundo turno Datafolha, divulgada no dia 26 de maio, que mostrou Lula com 47% e Flávio com 43% no segundo turno Meio/Ideia, divulgada no dia 28 de maio, que mostrou Lula com 46,5% e Flávio com 41,4% no segundo turno <p>Diante da crise e dos números, o PL passou a considerar a possibilidade de substituir Flávio na corrida à Presidência da República.</p> <p>O presidente do partido, Valdemar da Costa Neto, sempre defendeu o nome de Michelle Bolsonaro na disputa, mas admitiu que a escolha cabia ao ex-presidente, que ungiu o primogênito. Em entrevista à GloboNews na segunda-feira (25), no entanto, Valdemar minimizou a preferência, dizendo que Flávio é “candidato para valer” e Michelle “está fora de questão”.</p> <p>Para Paulo Nicolli Ramirez, professor de sociologia da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), será necessário aguardar os reflexos da classificação por parte dos Estados Unidos das facções PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) como grupos terroristas para entender o lugar de Flávio na corrida eleitoral.</p> <p>A designação pelo Departamento de Estado dos EUA, anunciada na quinta-feira (28), ocorreu dois dias depois de Flávio Bolsonaro se reunir com o presidente americano Donald Trump. </p> <p>“A campanha de Flávio Bolsonaro alcançou o calcanhar de aquiles dos governos petistas, que é a segurança pública. Do ponto de vista dos apoiadores do bolsonarismo, é uma vitória. Por outro lado, o tiro pode sair pela culatra, porque o debate sobre soberania nacional volta à tona, a exemplo do que ocorreu em 2025 com o tarifaço. A depender do discurso de Lula, isso pode fazer com que parte da opinião pública migre de Flávio para outros candidatos”</p> <p>Paulo Nicolli Ramirez</p> <p>professor de sociologia da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), em entrevista ao Nexo</p> Os outros nomes à direita <p>Os ex-governadores de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), e de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), além de um dos fundadores do MBL (Movimento Brasil Livre), Renan Santos (Missão), são os pré-candidatos no espectro à direita e extrema direita que mais se destacam até agora.</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/05/caiado-e-zema-600x400.jpeg" type="image/jpeg" medium="image"> <media:title> Ronaldo Caiado (PSD-GO) e Romeu Zema (Novo-MG) durante evento em Minas </media:title> <media:credit> Gil Leonardi </media:credit> </media:content> <p>Todos aproveitaram a revelação das mensagens sobre o financiamento de “Dark Horse” para se capitalizar politicamente, fazendo críticas públicas a Flávio Bolsonaro.</p> <p>Caiado foi menos incisivo: disse que o senador deve explicações, mas que o mais importante na eleição de 2026 é “derrotar o PT”. Zema, o primeiro a se pronunciar, afirmou que o caso era “imperdoável” e um “tapa na cara dos brasileiros de bem”, mas depois amenizou o tom.</p> <p>Renan Santos manteve a postura adotada por outros membros do Missão de desafiar e criticar frontalmente Bolsonaro e a família. O pré-candidato e seu recém-fundado partido se apresentam como uma direita “do terceiro milênio”, que se inspira em nomes ainda mais extremistas e reacionários que as principais referências do bolsonarismo.</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2024/06/Renan-Santos--600x344.png" type="image/png" medium="image"> <media:title> Renan Santos em live do partido Missão </media:title> <media:credit> Reprodução / @PartidoMissao </media:credit> </media:content> <p>Segundo as pesquisas Datafolha divulgadas entre abril e maio, a intenção de voto dos três candidatos se manteve praticamente inalterada depois das mensagens de Flávio e Vorcaro serem divulgadas, e os três seguem empatados dentro da margem de erro.</p> <p>No levantamento divulgado em 26 de maio, eles não alcançaram dois dígitos de intenção de voto na pergunta estimulada — quando os nomes dos candidatos são mostrados pelos pesquisadores aos entrevistados.</p> <p>4%</p> <p>é a intenção de voto em Ronaldo Caiado (PSD-GO), segundo Datafolha de 26 de maio</p> <p>3%</p> <p>é a intenção de voto em Romeu Zema (Novo-MG), segundo Datafolha de 26 de maio</p> <p>3%</p> <p>é a intenção de voto em Renan Santos (Missão), segundo Datafolha de 26 de maio</p> <p>Nas pesquisas de outros institutos, os candidatos têm um percentual semelhante, que dificilmente ultrapassa 5% das intenções de voto.</p> <p>A Atlas/Bloomberg, no entanto, captou um cenário mais favorável para Renan Santos, que aparece 6,9% das intenções de voto no levantamento divulgado em 19 de maio. Zema tem 5,2% e Caiado, 2,7%.</p> <p>Ainda segundo a pesquisa, Santos é o candidato preferido dos jovens de 16 a 24 anos.</p> <p>36,1%</p> <p>é a intenção de voto em Renan Santos (Missão) para a Presidência da República entre jovens de 16 a 24 anos, segundo pesquisa Atlas/Bloomberg </p> <p>Caiado e Zema avaliam uma aliança para as eleições de 2026. Na quarta-feira (27), o ex-governador de Goiás afirmou em entrevista para a rádio Nova Difusora de São Paulo que os dois tiveram uma conversa durante a semana, e uma chapa formada pela dupla não está descartada.</p> O convite a Aécio <p>Na terça-feira (26), a federação PSDB-Cidadania formalizou o convite ao deputado federal Aécio Neves (MG) para se candidatar à Presidência da República. Dias antes, a legenda tucana tinha tentado lançar o ex-ministro Ciro Gomes, mas ele recusou, dizendo que quer se dedicar à campanha ao governo do Ceará.</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/05/img20260520174115018MED-600x370.jpg" type="image/jpeg" medium="image"> <media:title> Aécio Neves (PSDB-MG) no plenário da Câmara dos Deputados </media:title> <media:credit> Thiago Cristino / Câmara dos Deputados 20.05.2026 </media:credit> </media:content> <p>Em 2014, Aécio concorreu ao Planalto com a então presidente Dilma Rousseff (PT), perdendo por pouco mais de 3% dos votos válidos. Na época, Neves era a “nova” cara do PSDB e da oposição. Depois da derrota, ele contestou a lisura das eleições e as urnas eletrônicas, uma atitude que destoou da história do seu partido, um dos responsáveis pela reconstrução da democracia no país pós-ditadura militar (1964-1985).</p> <p>48%</p> <p>foi o percentual de votos válidos em Aécio Neves no segundo turno das eleições de 2014</p> <p>51%</p> <p>foi o percentual de Dilma Rousseff, que venceu o pleito</p> <p>Em 2016, o PSDB foi o partido que mais conquistou prefeituras no Brasil. Aécio era visto como o nome natural para concorrer e chegar à Presidência em 2018. Mas ele e o partido foram atingidos por um áudio que o empresário Joesley Batista entregou à Operação Lava Jato, mostrando que os dois negociavam um pagamento de R$ 2 milhões. </p> <p>O político foi absolvido do processo de pagamento de propina, mas sua vida pública ficou prejudicada por alguns anos, até ele ser eleito novamente em 2022 como deputado federal — um rebaixamento considerando o currículo de Neves, ex-governador de Minas Gerais, ex-senador pelo estado e quase presidente da República em 2014.</p> <p>Para Ramirez, a indicação de Aécio pelo PSDB é uma tentativa de a legenda renascer, considerando a atual bancada ínfima do partido no Congresso, a perda no número de prefeituras e governos nas últimas eleições e a debandada de burocratas do partido.</p> <p>20</p> <p>número de parlamentares da federação PSDB-Cidadania na Câmara dos Deputados</p> <p>3</p> <p>número de parlamentares do PSDB no Senado </p> <p>“Aécio é um candidato politicamente morto e tenta ser o último suspiro do PSDB, mas dificilmente chega em algum lugar. Até porque está se apresentando como terceira via — e, geralmente, quem se apresenta assim costuma ir para lugar nenhum”, disse Ramirez ao Nexo.</p> <p>Já para o cientista político Paulo Henrique Cassimiro, professor do departamento de ciência política da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), o PSDB tenta antecipar o que será o grande trunfo de um candidato da direita em 2030: o discurso do fim da polarização, sem Lula concorrendo e com um período maior de desgaste da família Bolsonaro.</p> <p>“O PSDB quer cavar e construir esse espaço, mesmo Aécio não sendo um candidato viável. Querem projetar o discurso do centro, que é o discurso que o PSDB vai assumir”, disse ao Nexo.</p> A viabilidade dos ‘alternativos’ <p>Tanto Ramirez como Cassimiro veem poucas chances de uma candidatura à direita se viabilizar em 2026 sem o sobrenome Bolsonaro. </p> <p>“O escândalo do Master dificulta ainda mais as outras candidaturas de direita. Porque a tendência é que ocorram tiros amigos: um criticando o outro para chegar ao segundo turno contra Lula. Esses conflitos tendem a dificultar o caminho da direita como um todo e deixar Lula mais próximo da vitória”, afirmou Ramirez.</p> <p>Para Cassimiro, a maior dificuldade é o elevado piso de votos dos dois principais candidatos. “Qualquer candidato à direita precisaria tirar mais de 30 pontos do Flávio [no primeiro turno]. É muito improvável que isso aconteça. A tendência é reproduzir a lógica de competição das duas últimas eleições, com um candidato do campo bolsonarista e outro do PT”, disse.</p> <p>Segundo o professor da Uerj, quando Bolsonaro decidiu que seu filho mais velho seria candidato à Presidência, ele impediu a sua reeleição no Senado — uma jogada arriscada, considerando o envolvimento de Flávio em outros esquemas para além de “Dark Horse”, como o caso das rachadinhas e de lavagem de dinheiro. A opção foi mandar o primogênito para o “tudo ou nada”.</p> <p>“Apoiar uma liderança de direita, como [o governador de São Paulo] Tarcísio de Freitas [Republicanos], levaria ao fim da família Bolsonaro caso ele fosse eleito, pois tiraria completamente a liderança da direita da mão deles. O cálculo é: melhor perder a eleição e manter o controle da direita”</p> <p>Paulo Henrique Cassimiro</p> <p>professor de ciência política da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), em entrevista ao Nexo</p> <p>Para Ramirez, o cenário eleitoral para 2030 é um “céu aberto” , e vai exigir que direita e a esquerda se reorganizem sem Lula nem Bolsonaro, que está preso e inelegível. “É possível que a gente tenha uma eleição inédita, com novos candidatos”, disse.</p>
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| Candidato | Sentimento |
|---|---|
| Flávio Bolsonaro | negativo |
| Lula | neutro |