O clima de ‘já ganhou’ pode se voltar contra Flávio Bolsonaro?
<p>Candidato do PL critica propostas populares e fala abertamente em mudar a Constituição após resultado positivo no primeiro turno. O ‘Nexo’ ouviu duas cientistas políticas sobre os efeitos desse discurso</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/09/55545083379_e89a3fd918_k.webp" type="image/webp" medium="image"> <media:title> Flávio Bolsonaro em motocarreata em São Luís, capital do Maranhão </media:title> <media:credit> Vittor Sales / Divulgação Campanha Flávio Bolsonaro 22.09.2026 </media:credit> </media:content> <p>Pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira (8) mostra que Flávio Bolsonaro (PL) tem 52% dos votos válidos no segundo turno, ante 48% de Lula (PT). A pontuação exclui nulos, brancos e indecisos.</p> <p>49%</p> <p>é quanto Flávio tem em votos totais (incluindo brancos, nulos e indecisos), segundo o levantamento, que tem margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos</p> <p>45%</p> <p>é quanto Lula tem em votos totais, segundo o levantamento, registrado sob o número BR-02949/2026 no TSE (Tribunal Superior Eleitoral)</p> <p>A votação do primeiro turno já havia apresentado um cenário favorável à eleição de Flávio, que saiu à frente de Lula no domingo (4). A perspectiva de poder para o filho primogênito de Jair Bolsonaro (PL) tem atraído apoios, estimulado negociações e gerado declarações incisivas do senador sobre um eventual futuro governo. O clima de “já ganhou”, no entanto, pode ter efeitos negativos para a campanha. </p> <p>Neste texto, o Nexo mostra os movimentos da campanha de Flávio após o resultado do primeiro turno e analisa os efeitos do clima de “já ganhou” com a ajuda de cientistas políticas.</p> As promessas de campanha <p>O primeiro turno terminou no domingo (4) com Flávio à frente de Lula, num placar de 47% dos votos contra 45,2%. A vantagem tornou o filho de Bolsonaro favorito na votação de 25 de outubro.</p> <p>Após a votação, o senador passou a criticar propostas populares defendidas pelo atual governo, como o fim da escala 6 por 1 e a proibição das bets, como são conhecidas as apostas online.</p> <p>69%</p> <p>dos brasileiros são favoráveis ao fim da escala 6 por 1, segundo pesquisa Quaest divulgada em 15 de julho</p> <p>78%</p> <p>dos brasileiros são favoráveis à proibição de bets e cassinos online, segundo pesquisa Datafolha divulgada em 1º de outubro</p> <p>Em vez dessas medidas, Flávio prometeu uma escala de trabalho flexível, com redução salarial, e a proibição de cassinos online, mas com manutenção das apostas esportivas.</p> <p>Além disso, Flávio disse que pretende usar a maioria formada pela direita e pela extrema direita na Câmara e no Senado para mudar a Constituição Federal de 1988.</p> <p>“O Brasil já me deu, [Ronaldo] Caiado, um Congresso muito mais à direita do que é hoje, com maioria no Senado para eleger presidente, com maioria na Câmara para eleger presidente, para a gente mudar a Constituição, para redemocratizar este país, para as instituições voltarem a respeitar este país”</p> <p>Flávio Bolsonaro </p> <p>senador e candidato à Presidência, em evento na terça-feira (6) ao lado de Ronaldo Caiado (PSD), candidato derrotado no primeiro turno</p> <p>Após receber críticas sobre o potencial autoritarismo da declaração, Flávio disse que as mudanças que pretende fazer passam por três áreas: reforma do Judiciário, redução da maioridade penal e fim da reeleição.</p> <p>A campanha do candidato também passou a falar abertamente sobre mudar a reforma tributária. Segundo Daniella Marques, coordenadora do núcleo econômico de Flávio, um eventual futuro governo acabaria com o “split payment” (pagamento fracionado, em tradução livre), mecanismo que separa o imposto no momento em que uma compra é paga e tem por objetivo evitar a sonegação e a fraude.</p> <p>Para Tahtiana Chicarino, professora de ciência política da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, as manifestações incisivas após o resultado eleitoral não são comuns, sobretudo se observado o “plano de governo muito pouco claro”.</p> <p>“[Flávio está] se sentindo confortável para se posicionar, dado que tem dominância nas duas Casas legislativas. Pode ser um elemento de arrogância política” </p> <p>Tathiana Chicarino</p> <p>professora de ciência política da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em entrevista ao Nexo</p> <p>Monalisa Soares, professora de ciência política da UFC (Universidade Federal do Ceará), avaliou que a declaração sobre alterar a Constituição adotou “um tom de prospecção de futuro vitorioso”.</p> <p>“De fato, ele começa a tratar de temas dos quais ainda não tinha tratado na campanha, temas que sugerem alterações mais substantivas. Começa a mencionar a possibilidade do futuro governo”, afirmou ao Nexo. </p> A perspectiva de poder <p>A perspectiva de poder de Flávio tem atraído para sua candidatura partidos do centrão, que ficaram neutros no primeiro turno ou tiveram seus próprios candidatos à Presidência. A federação PP-União Brasil e as siglas Republicanos, Novo e Podemos anunciaram apoio ao senador na terça (6), quarta (7) e quinta-feira (8), respectivamente.</p> <p>O União Brasil e o PP integram a federação União Progressista, que terá 87 deputados em 2027. O Republicanos terá 41; o Novo, 10; e o Podemos, 27.</p> <p>121</p> <p>é a quantidade de deputados que o PL, partido de Flávio, terá</p> <p>A campanha bolsonarista já discute nos bastidores os nomes que podem ocupar a Esplanada dos Ministérios num eventual governo Flávio, ainda que evite falar sobre isso publicamente. Segundo apuração do site Poder360, alguns dos cotados são:</p> Adolfo Sachsida (Fazenda ou Planejamento) Adriano Pires (Minas e Energia) Daniella Marques (Fazenda, Planejamento, Desenvolvimento Social ou Casa Civil) Guilherme Derrite (PP-SP) (Segurança Pública) Marcelo Kayath (Fazenda) Pedro Lupion (Republicanos-PR) (Agricultura) Ronaldo Caiado (PSD-GO) (Agricultura ou Segurança Pública) <p>Para Chicarino, a reacomodação pós-primeiro turno era esperada. “Estamos falando de uma campanha em que boa parte dos candidatos [à Presidência] teve desidratação. O voto útil já aconteceu no primeiro turno”, disse.</p> <p>Além disso, já eram contabilizados os apoios de Romeu Zema (Novo-MG) e Ronaldo Caiado (PSD-GO) — que estão no mesmo campo político-ideológico de Flávio — e da federação União Brasil-Progressistas, formada por partidos fisiológicos, que se movimentam a partir da perspectiva de poder.</p> <p>Já Soares destacou que esses apoios significam a ampliação das bases do candidato do PL, com a consolidação de seu favoritismo. “Isso vai mostrando que ele [Flávio] tem condições de se constituir como o representante legítimo do antipetismo”, afirmou.</p> <p>A professora da UFC acrescentou que há ainda a dimensão organizacional. Muitas vezes, grupos que se engajam na campanha sob a perspectiva de poder mobilizam bases locais e redes de apoio nos territórios — o que pode ampliar o alcance do voto no segundo turno. Ainda assim, “o apoio da liderança [a Flávio] não é automaticamente uma transparência efetiva do eleitorado”.</p> Os efeitos do clima de ‘já ganhou’ <p>Aliados de Flávio alertaram a campanha para os riscos do clima de “já ganhou”, segundo a coluna de Valdo Cruz, no G1.</p> <p>Chicarino afirmou que esse clima pode ser perigoso para qualquer campanha, porque abre margem para o candidato fazer declarações que possam gerar constrangimento em parte do eleitorado.</p> <p>“Com o clima de ‘já ganhou’, o candidato pode falar coisas que, embora já façam parte de seu projeto político, podem causar certo abalo em termos de opinião pública”, afirmou.</p> <p>Soares acrescentou que, “à medida que eles se sentem confortáveis, podem tocar em temas que vão exigindo mais explicações — e, muitas vezes, essas explicações ou respostas podem colocar o candidato numa circunstância não favorável”.</p> <p>O clima de “já ganhou” também pode ter o efeito de desmobilizar parte do potencial eleitorado de Flávio, segundo a professora da UFC. Se muitos eleitores acreditarem que o jogo está ganho e seus votos não farão diferença, poderão não sair para votar.</p> <p>2,2 milhões</p> <p>foi a vantagem de Flávio sobre Lula no primeiro turno</p> <p>33,4 milhões</p> <p>foi a quantidade de eleitores que se abstiveram na votação de domingo (4)</p> <p>Soares afirmou ainda que esse clima pode atrapalhar a conquista de eleitores que votaram em outros candidatos no primeiro turno, “subestimando esse eleitor, como se não se precisasse fazer muitos esforços para conquistá-lo”.</p> <p>Ao mesmo tempo, impulsiona-se a mobilização da oposição. “Essa ideia de que [Flávio] já está falando como se estivesse sentado na cadeira pode ser apresentada ao eleitor como um desrespeito”, afirmou.</p>
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| Candidato | Sentimento |
|---|---|
| Flávio Bolsonaro | negativo |
| Lula | negativo |