Lula está no poder, mas não cresce nas pesquisas. Por quê?
<p>Intenções de voto no presidente ficam estagnadas em levantamentos eleitorais, mesmo com máquina pública a favor. Enquanto isso, Flávio Bolsonaro se recupera de seu pior momento</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/09/55522639847_8a16108e57_k.webp" type="image/webp" medium="image"> <media:title> O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em comício em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul </media:title> <media:credit> Ricardo Stuckert / Flickr/Lula - 11.09.2026 </media:credit> </media:content> <p>As pesquisas Datafolha e AtlasIntel/Bloomberg divulgadas nesta quinta-feira (17) trazem Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) empatados tecnicamente no primeiro e segundo turnos. </p> <p>Os levantamentos refletem um cenário observado nas pesquisas eleitorais desde o início do ano: as intenções de voto em Lula estão estagnadas. A campanha petista pouco tem conseguido aproveitar o efeito incumbência, termo usado por cientistas políticos para descrever a vantagem de um candidato por ter a máquina pública a seu favor. </p> <p>Neste texto, o Nexo explica o que é o efeito incumbência e conversa com cientistas políticos para entender o que levou à estagnação de Lula nas pesquisas. </p> As pesquisas <p>Na AtlasIntel, o presidente tem 44% contra 42% do senador no primeiro turno. No Datafolha, 39% contra 36%. Na central de pesquisas do Nexo, os levantamentos dos principais institutos também trazem um cenário acirrado.</p> <p>Datafolha – 1º turno</p> <p></p> <p>Atlas – 1º turno</p> <p></p> <p>Central do Nexo – 2º turno</p> <p></p> <p>No segundo turno, Lula soma 46% contra 44% de Flávio no Datafolha, igualando as duas pesquisas anteriores. Na Atlas, ele é ultrapassado numericamente pelo adversário, ainda que por margem estreita: 47,2% para o candidato do PL, 46,8% para o presidente.</p> <p>Datafolha – 2º turno</p> <p></p> <p>Atlas – 2º turno</p> <p>Central do Nexo – 2º turno</p> <p></p> O que é o efeito incumbência <p>O efeito incumbência se refere às consequências que o exercício atual do mandato (a incumbência) acarreta ao governante enquanto candidato. Estudos mostram que as vantagens e desvantagens decorrentes da posição variam a depender do país e do tipo de cargo em jogo.</p> <p>No caso de presidentes no Brasil, fatores como o controle da execução do Orçamento federal e a alta visibilidade costumam dar aos mandatários (os incumbentes) uma vantagem significativa em relação aos demais candidatos na disputa à reeleição.</p> <p>A Lei das Eleições estabelece regras para que o efeito incumbência não gere uma concorrência desleal em relação aos demais candidatos. Desde 2006, a norma determina que programas sociais só podem ser executados no ano da votação se forem autorizados por lei e integrarem o Orçamento do ano anterior. Como regra geral, o poder público fica proibido “de realizar a distribuição gratuita de bens, valores ou benefícios aos cidadãos”.</p> <p>Ainda assim, sobra para os presidentes uma margem de manobra significativa para implementar medidas sociais e econômicas em ano eleitoral que não estruturam uma política pública de longo prazo, mas podem melhorar a popularidade do governante até a data do pleito. </p> <p>Um exemplo desse tipo de medida ocorreu nesta quinta-feira (17). O governo federal anunciou o reajuste do Bolsa Família, o que não acontecia desde a reativação do programa, em 2023. A medida ocorre faltando 17 dias para o primeiro turno. </p> <p>15,04%</p> <p>foi o percentual de reajuste do Bolsa Família</p> <p>O piso do Bolsa Família passa de R$ 600 para R$ 691, enquanto o valor médio do programa vai de R$ 675 para R$ 777. O reajuste começa a valer a partir do dia 19 de outubro, menos de uma semana antes do possível segundo turno. </p> <p>Desde o início de 2026, a estratégia de Lula foi manter o funcionamento dos projetos e políticas públicas e entregar resultados antes das eleições. Tópicos como o fim do regime de trabalho na escala 6×1 e a aprovação da PEC da Segurança Pública eram tidos como prioridades. As propostas, no entanto, não avançaram no Congresso Nacional e devem ser definidas apenas após o pleito.</p> A conjuntura nacional <p>O primeiro turno das eleições gerais de 2026 ocorre em 4 de outubro. A menos de três semanas para a votação, o cenário político e econômico do Brasil é conturbado, o que pode impactar o resultado final do pleito. </p> <p>Cenário político conturbado</p> <p>Escândalo do Banco Master</p> <p>Após uma série de vazamentos do escândalo do Banco Master via imprensa e pressão dos colegas, o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça levantou o sigilo de todos os documentos da investigação do caso na sexta-feira (11). O processo confirmou que nomes como os dos senadores Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Ciro Nogueira (PP-PI) e Jaques Wagner (PT-BA), além do ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL), são investigados sob a suspeita de fazerem parte da teia de influência do banqueiro Daniel Vorcaro. </p> <p> </p> <p>Crise no STF </p> <p>Por causa dos vazamentos do Master, os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes dispararam a maior crise institucional da história do Supremo. Na terça-feira (15), a sessão plenária para avaliar a abertura de uma investigação contra Moraes no âmbito do caso Master terminou sem resolução. A sessão foi marcada por bate-boca, acusações e provocações entre os ministros, além da divulgação de novos vazamentos envolvendo Mendonça, Luiz Fux e Kássio Nunes Marques.</p> <p> </p> <p>Frustrações econômicas</p> <p>Apesar de números positivos, como a deflação de 0,32% do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) em setembro e a queda da taxa Selic para 13,75% – o menor valor desde janeiro de 2025 –, a percepção brasileira é de um mal-estar econômico. Segundo pesquisa BTG/Nexus de 31 de agosto, 53% dos eleitores consideram a situação da economia ruim ou péssima. O endividamento, as bets e a insatisfação com o trabalho são possíveis fatores por trás desse fenômeno. </p> Os motivos para a estagnação <p>Para entender os motivos que fazem Lula estar com as intenções de voto estagnadas, mesmo com o efeito incumbência, o Nexo conversou com dois professores de ciência política. São eles:</p> Mateus de Albuquerque, professor da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) e coordenador do Observatório de Elites Políticas e Sociais do Brasil Leandro Consentino, professor do Insper <p>O quanto a estagnação de Lula se associa à dificuldade de incumbentes ao redor do mundo?</p> <p>Mateus de Albuquerque Existe um padrão claro de dificuldade dos incumbentes. Muitas das explicações para isso passam diretamente pelo cenário econômico pós-pandemia, que parece ter gerado uma inflação que não retrai com os remédios monetaristas tradicionais, como os juros altos. Além disso, há a crise global de cadeias de abastecimento produzida pelas guerras.</p> <p>Meu problema com essas explicações é que elas tomam algumas consequências como causa. O cenário do desabastecimento gerado pelas guerras tem que ser analisado também sob a perspectiva do fato de haver guerras. Por que elas existem? Por que o intervencionismo tem crescido? E aí mora um pouco o ponto que gostaria de fazer: há uma crise no capitalismo um pouco mais profunda que a explicada somente pela economia, uma crise do mundo unipolar do pós-Guerra Fria, o fim de uma era dos consensos. </p> <p>A crise dos incumbentes pode ser entendida como uma crise da ideia geral de governo enquanto agente capaz de gerar consensos no mundo. E a estagnação de Lula está muito associada a isso. Não é bom ser incumbente, não é bom ser “sistema”. No caso do Brasil, a situação piora pelo fato de Lula ser ator político relevante desde 1982. Ele presidiu o país de 2003 até 2010, elegeu e reelegeu sua sucessora e agora volta. Gerações de brasileiros cresceram com Lula presidente. É muito difícil desvinculá-lo do sistema político.</p> <p>Leandro Consentino Essa onda de fato existe. As pessoas têm dificuldade em renovar seus mandatos na conjuntura que estamos atravessando — uma conjuntura extremamente difícil do ponto de vista mundial, com guerras e desestabilizações. </p> <p>Também há uma questão da polarização em alguns lugares como o Brasil, mas acho que ela funciona mais como um vento contrário do que de fato um impedimento de navegação.</p> <p>O quanto essa estagnação se deve à conjuntura nacional? </p> <p>Mateus de Albuquerque O cenário atual pode ser explicado por dois prismas. O primeiro é o da situação material dos brasileiros, que não sentiram efetivamente uma melhora em suas vidas suficiente a ponto de comprarem a ideia de que “é Lula ou nada”. Parte disso dialoga com decisões do governo, parte com razões estruturais de que falamos acima. </p> <p>Isso desloca uma parcela do eleitorado à indecisão ou à oposição. Lembrando, claro, que o bolsonarismo ainda é um ator político relevante — então uma parte fundamental dos 40% de Flávio Bolsonaro ainda é substrato dessa parcela social que segue bolsonarizada, independentemente de qualquer ação do governo ou da conjuntura. </p> <p>O segundo prisma são os escândalos recentes do Banco Master, que são deglutidos pela opinião pública como uma “grande confusão que atinge a todos”. Grandes confusões, como também foi a Lava Jato, geram a ideia de que o próprio sistema político está quebrado. </p> <p>E Lula e sua campanha têm dificuldade de se desvencilhar do sistema político. Em 2022, eles nem tentaram, porque a ideia geral era reforçar Lula como o status quo contra o golpismo. Agora, esse antídoto se converte em veneno: quando se entende que a crise atinge todo mundo, Lula parece o mais culpado, ainda que, tragicamente, não haja qualquer indício de envolvimento seu ou de seu governo com o escândalo.</p> <p>Leandro Consentino Há um peso muito maior da conjuntura nacional do que da onda mundial anti-incumbente.</p> <p>A crise conjuntural que o Brasil atravessa explica mais a desaprovação desse governo. Há uma questão atrelada ao próprio mal-estar econômico — não necessariamente com estatísticas ruins, mas com as dificuldades do governo em vender uma sensação de bem-estar. Uma crise socioeconômica que deságua também na questão de segurança pública, em que o governo está perdendo a narrativa, e a oposição consegue emplacar bem.</p> <p>Por fim, há a questão da crise institucional que vivemos, sobretudo agora com relação ao Judiciário, em que o governo está alinhado com o lado que está na berlinda — o lado do ministro Alexandre de Moraes —, e isso também está afetando sua imagem.</p> <p>Por tudo isso, acho que a conjuntura nacional tem um impacto muito maior do que essa onda anti-incumbente que de fato existe, mas que acho que poderia ser driblada caso o governo não tivesse essas dificuldades internas.</p>
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| Candidato | Sentimento |
|---|---|
| Flávio Bolsonaro | neutro |
| Lula | negativo |