ANÁLISE DE COBERTURA

Quais as disputas sobre a construção de data centers

nexo · 17/09/2026 ·analise

<p>Programa do governo para atrair centros de processamento é sancionado sem definição clara sobre fontes de energia. Discussões ocorrem em meio a pressões sobre projetos no Brasil e nos EUA</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/09/55530473108_8bfd05d690_k.jpg" type="image/jpeg" medium="image"> <media:title> Integrantes do governo durante evento de lançamento do Redata em Brasília (DF) </media:title> <media:credit> Ricardo Stuckert/GOVBR </media:credit> </media:content> <p>O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, se articula para incluir o gás natural como fonte permitida para abastecer projetos beneficiados pelo Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center), sancionado na terça-feira (15). </p> <p>O texto concede incentivos fiscais para que empresas instalem ou ampliem centros de processamento de dados no Brasil. A discussão sobre as fontes de energia permitidas para abastecimento desses espaços gerou pressões durante a tramitação do texto no Senado, criticada por ambientalistas e organizações da sociedade civil pela velocidade e falta de participação da sociedade.</p> <p>Neste texto, o Nexo explica as disputas em torno da construção de data centers e o crescimento de movimentos no Brasil e nos EUA contra esses projetos. </p> <p></p> <p></p> O que diz o Redata <p>O Redata é a aposta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, para incentivar a criação, a ampliação e a modernização de data centers no Brasil. Para isso, o governo deixará de tributar a compra, a importação e o fornecimento de itens de tecnologia com: </p> PIS e Pasep, que financiam direitos trabalhistas Cofins, que financia ações na saúde, previdência e assistência social IPI, que incide sobre itens industrializados Imposto de Importação, apenas para produtos sem produção nacional equivalente <p>O benefício vale por cinco anos e exige que as empresas destinem pelo menos 10% da capacidade de processamento e armazenamento de dados ao mercado interno — podendo vender ou doar o uso para universidades, startups e setor público. A obrigação, segundo o texto, pode ser trocada por um investimento extra em pesquisas. </p> <p>Além disso, os beneficiários do Redata devem aplicar, no mínimo, 2% do valor dos produtos comprados com desconto em projetos de pesquisa com universidades e institutos de tecnologia brasileiros.</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2025/05/DataCenter_Wikimedia-Commons.webp" type="image/webp" medium="image"> <media:title> Centro de processamento de dados </media:title> <media:credit> Wikimedia Commons </media:credit> </media:content> <p>Há ainda contrapartidas técnicas para a isenção de tributos. O uso de água para resfriamento de máquinas não pode superar 0,05 litro por kilowatt-hora (kWh) utilizado, e a energia consumida deve vir apenas de fontes renováveis ou de baixa emissão.</p> <p>R$ 5,2 bilhões </p> <p>é até quanto a isenção de tributos deve atingir em 2026, como estimado pelo Planalto; montante deve cair para R$ 1 bilhão nos anos seguintes</p> <p>O Redata havia sido proposto pelo governo federal em setembro de 2025, como medida provisória, mas perdeu a validade em fevereiro. Naquele mês, o texto retornou ao Congresso como projeto de lei e avançou para o Senado sem análise das comissões. Na Casa Alta, recebeu aval em 1º de setembro, com votação simbólica. </p> <p>7</p> <p>meses, aproximadamente, foi quanto o PL do Redata levou para ser analisado e aprovado pelo Congresso Nacional</p> <p>A celeridade na análise da redação foi alvo de críticas de entidades e pesquisadores, que questionaram a falta de discussões aprofundadas sobre o tema e a ausência da sociedade na construção do texto.</p> <p>Data centers</p> <p>O QUE SÃO</p> <p>Os data centers são centros de processamento de dados, espaços repletos de supercomputadores usados para manter de pé diferentes plataformas digitais – que processam grandes conjuntos de dados e exigem máquinas com mais capacidade que computadores comuns.</p> <p> </p> <p>ONDE ESTÃO</p> <p>Os maiores data centers do mundo ficam nos Estados Unidos, na Europa e na China. Também há unidades no Brasil – são estimados 218 centros de processamento de dados distribuídos por 37 cidades –, a maioria concentrada em São Paulo (59), Campinas (30), Rio de Janeiro (23), Porto Alegre (15) e Fortaleza (11).</p> <p> </p> <p>USO PARA IA</p> <p>A expansão do uso de ferramentas de inteligência artificial aumentou a demanda por data centers. Isso porque grandes quantidades de dados são processadas no treinamento dessa tecnologia – principalmente da IA generativa, capaz de gerar textos e outros tipos de linguagem.</p> <p> </p> <p>USO DE RECURSOS NATURAIS</p> <p>Um dos pontos mais controversos em torno da construção dos data centers é o impacto socioambiental. Para o trabalho que realizam, esses centros de processamento de dados precisam de uma grande quantidade de energia e água, utilizada para refrigerar as máquinas.</p> Quais são os questionamentos <p>O Redata foi encampado pelo Planalto sob a promessa de atrair investimentos e aumentar empregos. Mas esse argumento é, em alguma medida, frágil, segundo Marcelo Faria, membro do Lapin (Laboratório de Políticas Públicas e Internet) e doutorando na UFABC (Universidade Federal do ABC), que pesquisa a gestão e a extração de recursos na cadeia produtiva da inteligência artificial.</p> <p>“É uma indústria que produz pouquíssimos empregos, na verdade. São majoritariamente de baixa formação e complexidade produtiva voltados à construção civil. Uma vez que o data center está pronto, ele demanda empregos altamente especializados na tecnologia para que se mantenha funcionando”, disse ao Nexo.</p> <p>12,5 mil </p> <p>empregos diretos e indiretos são gerados pela construção e implantação de um data center, segundo estimativas de um estudo da FGV (Fundação Getulio Vargas) divulgado em agosto</p> <p>1.860 </p> <p>desses postos são permanentes, segundo a pesquisa</p> <p>Para Rodolfo Avelino, professor do Insper e conselheiro do CGI.br (Comitê Gestor da Internet no Brasil), é preciso avaliar quanto o Brasil realmente pode absorver conhecimento e tecnologias com o Redata. Para ele, as contrapartidas de transferência de tecnologia, por exemplo, são importantes, mas tímidas. </p> <p>“O risco é termos uma política muito eficiente para atrair infraestrutura física, sem que isso produza na mesma intensidade o domínio tecnológico. Isso está muito distante”, disse ao Nexo.</p> <p>Fortalecer a soberania tecnológica do país é outro foco do governo com o projeto, especialmente “em áreas como computação em nuvem, inteligência artificial, smart factories e Internet das coisas”, afirmou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços na terça-feira (15).</p> <p>60% </p> <p>dos dados gerados no Brasil são processados fora do país, segundo levantamento do Ministério da Fazenda</p> <p>“Um data center instalado fisicamente no Brasil pode continuar operando com equipamentos importados, com controle por empresas estrangeiras e modelos de inteligência artificial sobre os quais temos pouca capacidade de intervenção”, disse Avelino.</p> <p>As contrapartidas relacionadas à proteção ambiental são outro alvo de questionamentos em torno dos projetos de data centers.</p> <p>No Ceará, por exemplo, comunidades tradicionais e ambientalistas questionam a instalação de um enorme data center da ByteDance, empresa chinesa que controla o TikTok, na ZPE (Zona de Processamento Especial), entre os municípios de São Gonçalo do Amarante e Caucaia. </p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/09/caucaia.webp" type="image/webp" medium="image"> <media:title> Área reservada para instalação de data center no Ceará </media:title> <media:credit> Reprodução / Chico Rasta/Coding Rights </media:credit> </media:content> <p>O empreendimento reúne cinco centros de processamento de dados dedicados a abrigar informações de usuários de outros países. </p> <p>1 gigawatt</p> <p>é até quanto o funcionamento do data center do TikTok pode demandar em pleno funcionamento, como divulgou o UOL na segunda-feira (14); valor equivale a dois terços de toda a produção de energia do Ceará</p> <p>A construção do projeto começou em janeiro, mas, no início de setembro, virou alvo de ações na Justiça. Uma delas foi proposta pelo Ministério Público Federal e pela Defensoria Pública da União, que pedem novos estudos de impactos socioambientais do empreendimento — especialmente porque a captação de água subterrânea para o resfriamento das instalações pode afetar o abastecimento hídrico da região.</p> <p>70 hectares</p> <p>é o tamanho previsto de ocupação das instalações, segundo o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União; tamanho é equivalente a 98 campos de futebol</p> <p>Segundo os órgãos, o licenciamento ambiental feito via RAS (Relatório Ambiental Simplificado) — voltado para empreendimentos de baixo e médio impacto e alternativa mais simples em relação ao tradicional EIA/Rima (estudo e relatório de impacto ambiental) — é inadequado para o projeto. </p> <p>Em dezembro, uma perícia do Ministério Público sobre o documento apontou dados incorretos de consumo de água e energia, além de omissões de possíveis danos. Mas, segundo o governo cearense e o TikTok, o relatório “foi conduzido de acordo com a legislação vigente”, com “equipe multidisciplinar especializada”.</p> <p>O caso tensionou ainda mais os questionamentos de especialistas e entidades sobre a garantia de salvaguardas socioambientais durante a construção do Redata. No entanto, pressões durante a tramitação do texto ensejaram brechas que ainda serão regulamentadas.</p> <p>“O Redata não pode reproduzir, em escala nacional, os conflitos, violações de direitos e impactos socioambientais que a expansão dos data centers já evidencia no Ceará e em outros territórios”</p> <p>Coalizão Direitos na Rede</p> <p>em nota publicada em agosto</p> <p>No Senado, articulações do setor de gás natural abriram brechas na redação da política, alterando a exigência por “fontes limpas ou renováveis” para “fontes renováveis ou de baixa emissão [de gases de efeito estufa]”. </p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/03/cnpe-mc_abr_25062025-4.webp" type="image/webp" medium="image"> <media:title> O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira </media:title> <media:credit> Marcelo Camargo / Agência Brasil 25.06.2024 </media:credit> </media:content> <p>A adoção de fontes simplesmente de baixa emissão — que, além do gás natural, pode incluir energia nuclear — para data centers é uma bandeira do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, mas não é um consenso no Executivo. A resposta ao impasse estará numa portaria interministerial a ser editada nos próximos dias.</p> As resistências nos EUA <p>Nos Estados Unidos, a questão socioambiental deu tração ao aumento de movimentos contra a instalação de data centers. Esses grupos apontam que as receitas geradas por empreendimentos não compensam o acúmulo de impactos negativos — como os ruídos constantes, o alto consumo de água e energia e a poluição local, além do receio de aumento nas tarifas de luz.</p> <p>A oposição crescente atravessa divisões partidárias, influenciando políticos e gestores de parte dos estados a voltar atrás e travar os projetos. Em agosto, o governador da Pensilvânia, o democrata Josh Shapiro, impôs restrições a empreendimentos de data center e classificou as empresas construtoras como “predadoras”. Ações no Texas e em Nova York seguiram uma linha semelhante.</p> <p>3 em cada 4</p> <p>americanos se declaram contrários à construção de data centers em suas comunidades, segundo levantamento publicado em agosto pela Heatmap Pro e Embold Research</p> <p>500 </p> <p>jurisdições aprovaram proibições ou moratórias contra projetos de data center nos Estados Unidos, segundo estimativas do jornal americano The Information em agosto</p> <p>US$ 130 bilhões</p> <p>em projetos foram adiados ou cancelados no país no início de 2026</p> <p>“O que está acontecendo nos Estados Unidos merece atenção porque mostra que a expansão dos data centers deixou de ser uma discussão restrita à tecnologia”</p> <p>Rodolfo Avelino</p> <p>professor do Insper e conselheiro do CGI.br (Comitê Gestor da Internet no Brasil), em entrevista ao Nexo</p> <p>Apesar do crescimento da oposição a esses empreendimentos, os impedimentos registrados nos EUA representam apenas uma pequena parcela do volume de data centers planejado pelas empresas, que conduzem outros mais de 1.500 projetos no país.</p> <p>Essa tendência pode afetar o Brasil, segundo Faria, da UFABC. “Com o freio de países altamente desenvolvidos tecnologicamente, a expansão da indústria volta os olhos justamente para a América Latina e seus países dependentes de tecnologias, que não têm uma legislação adequada para lidar com essa indústria”, disse.</p>

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