ANÁLISE DE COBERTURA

Por que o custeio estrangeiro a campanhas é proibido

nexo · 14/09/2026 ·analise

<p>PT pediu a investigação de relação da candidatura Flávio Bolsonaro com fundo de investimento criado pelo vice-presidente americano J.D. Vance. Suspeita foi levantada inicialmente por Renan Santos </p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/09/d6a8238.webp" type="image/webp" medium="image"> <media:title> Apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL) em ato de campanha no Rio de Janeiro (RJ) </media:title> <media:credit> Fernando Frazão / Agência Brasil - 16.08.2026 </media:credit> </media:content> <p>O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ), vice-líder do governo na Câmara, entrou com uma notícia de fato no Supremo Tribunal Federal na sexta-feira (11) pedindo a investigação de possível investimento estrangeiro na campanha de Flávio Bolsonaro (PL). A suspeita, levantada inicialmente por Renan Santos (Missão), é de que o fundo de investimentos Rockbridge Network, cofundado pelo vice-presidente americano J.D. Vance em 2019, estaria financiando a candidatura. </p> <p>A legislação eleitoral brasileira proíbe doações estrangeiras a partidos ou candidatos, desde quantias em dinheiro à publicidade. Em reportagem publicada no sábado (12) pelo portal de notícias Amado Mundo, foi revelada a existência de um documento associado à campanha de Flávio sobre a exploração de terras raras e minerais críticos no Brasil caso ele seja eleito. </p> <p>Neste texto, o Nexo explica as suspeitas de investimento estrangeiro na campanha de Flávio Bolsonaro, apresenta a relação do candidato com os EUA e mostra o que a legislação eleitoral diz sobre o caso. </p> A suspeita de investimento estrangeiro <p>A ofensiva de Renan Santos e aliados sobre o possível investimento da Rockbridge na campanha de Flávio Bolsonaro começou em 5 de setembro. Arthur do Val (Missão) provocou o empresário Tallis Gomes em publicação no X (antigo Twitter), pedindo para que ele apresentasse “Pedro da Rockbridge” para “ganhar comissãozinha trazendo grana gringa pra campanha aqui do Brasil”. </p> <p>Gomes é fundador da plataforma de educação executiva G4 e representante brasileiro da Rockbridge. Segundo Renan Santos, ele e o também empresário Pedro Sang teriam intermediado apoio do fundo para candidaturas de direita. “São caras que põem dinheiro em eleição”, disse o candidato do Missão em discurso em Fortaleza, no Ceará, em 5 de setembro. </p> <p>O primeiro alvo da Rockbridge teria sido Tarcísio de Freitas (Republicanos), mas os esforços teriam sido redirecionados para Flávio Bolsonaro, de acordo com Santos. O candidato do Missão reforçou as acusações sobre a presença do fundo de investimento americano na campanha do candidato do PL em sabatina realizada pelo jornal Folha de S. Paulo e o portal Uol na sexta-feira (11). </p> <p>“Eles naturalmente estão se envolvendo com a campanha do Flávio porque eles veem a oportunidade de fazer negócios”</p> <p>Renan Santos </p> <p>candidato à Presidência pelo Missão </p> <p>Em entrevista em 23 de abril ao podcast Os Sócios, Gomes confirmou fazer parte do grupo americano e afirmou que estava aconselhando então pré-candidatos à Presidência – sem citar nomes – em temas como inteligência artificial e energia. Em suas redes sociais, o empresário se coloca como apoiador de Flávio Bolsonaro. </p> <p>Após trocas de acusações nas redes sociais, Tallis Gomes protocolou uma notícia-crime na Justiça do Ceará contra Renan Santos na sexta-feira (11) por possíveis crimes contra a honra e ameaça. No mesmo dia, o empresário afirmou ao colunista Guilherme Amado que não atua para levantar recursos para a campanha de Flávio e que dialoga com diversos candidatos, sem adesão formal. </p> <p>Gomes disse ao portal que essa é uma forma de Santos chamar a atenção: “É uma cortina de fumaça porque a campanha acabou, Renan derreteu”. </p> <p>De acordo com José Paulo Martins Júnior, professor de ciência política da UFF (Universidade Federal Fluminense), o movimento faz parte de uma estratégia de Santos de atacar os candidatos com maior intenção de votos nas pesquisas eleitorais – Lula (PT) e Flávio. </p> <p>“Já existe uma certa identidade ideológica entre Flávio e Renan. Ambos têm propostas de segurança pública, de um discurso de bukelização do Brasil, assim como a abertura para a exploração internacional, especialmente dos Estados Unidos. O caminho para a candidatura do Renan é fustigar o Flávio e ver se por algum milagre consegue derrubá-lo e ocupar o lugar”, disse Júnior ao Nexo. </p> <p>Já Paulo Peres, professor de ciência política da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), afirmou que Renan visa o pleito presidencial de 2030 ao enfrentar Flávio. “Isso poderia alçá-lo à condição de ‘via alternativa’, atraindo, gradativamente, os eleitores da centro-direita e da direita que estão descontentes com as lideranças bolsonaristas”, afirmou ao Nexo. </p> A atuação da Rockbridge no Brasil <p>A Rockbridge Network é um fundo com doações de conservadores dos Estados Unidos que financia veículos de comunicação favoráveis ao Partido Republicano, campanhas de mobilização de eleitores e o lançamento de pesquisas eleitorais. Além de J.D. Vance, a organização está ligada a empresários de tecnologia do Vale do Silício. </p> <p>US$ 75 milhões</p> <p>foi o valor investido pela Rockbridge Network para tentar influenciar nas eleições presidenciais americanas de 2024, segundo a agência de notícias Reuters</p> <p>Sang seria o principal articulador da Rockbridge no Brasil. Segundo reportagem publicada no domingo (13) por Amado, o empresário atua na sede do comitê de campanha de Flávio Bolsonaro, próximo ao Parque Ibirapuera, em São Paulo. </p> <p>André Marinho (Novo), candidato a governador do Rio de Janeiro, teria apresentado Sang ao grupo Rockbridge. A irmã de Marinho, a cantora Giulia Be, é esposa de Conor Kennedy. Ele, por sua vez, é filho de Robert Kennedy Jr, secretário de Saúde do governo de Donald Trump.</p> <p>Marinho e Sang viajaram a Dallas, no Texas, em outubro de 2025, a convite da Rockbridge. O intuito era analisar a possibilidade de abrir um escritório do grupo conservador no Brasil. A iniciativa não avançou em função do momento político conturbado no país, afirmou o empresário. </p> <p>O candidato do partido Novo ao governo do Rio foi o responsável por desenvolver um memorando em que sugere uma aliança entre Brasil e Estados Unidos para a exploração de minerais de terras raras no país. O termo serve para se referir a 17 elementos químicos semelhantes que são amplamente utilizados nas áreas de tecnologia e de indústrias modernas.</p> <p>Em resposta à coluna de Amado, Marinho afirmou que o documento não tem relação com o candidato do PL à Presidência. Apesar disso, há a expressão “Flávio Bolsonaro | 2026 Campaign” na capa do memorando, além do slogan “Flávio Bolsonaro – Property Partnership” (“parceria imobiliária”, em tradução livre) em todas as páginas. </p> <p>Marinho também disse que não apresentou o documento para nenhum interlocutor americano. Ele esteve nos EUA no início de abril, momento em que se encontrou com J.D. Vance. Segundo o candidato ao governo do Rio de Janeiro, a reunião tratou de questões como a expansão do crime organizado e de facções criminosas internacionalmente. </p> <p>O texto ainda diz que o presidente Lula seria “pró-China”. Caso Flávio fosse eleito, o argumento é que a administração dele “posicionará o Brasil como o principal fornecedor e polo de processamento de minerais críticos alinhados ao Ocidente no Hemisfério Ocidental, ao mesmo tempo em que assegura a industrialização, a geração de empregos e a autonomia estratégica”.</p> <p>Sang afirmou à coluna de Amado que desconhece “qualquer tipo de financiamento da Rockbridge Network para a campanha” de Flávio. Já a equipe do candidato do PL não se posicionou sobre o caso. </p> A relação de Flávio com os EUA <p>Embora não haja menção aos Estados Unidos em seu plano de governo, Flávio Bolsonaro já fez reiterados acenos explícitos ao governo Donald Trump, inclusive colocando uma equipe de transição à disposição dos EUA, caso seja eleito.</p> <p>Em audiência nos EUA em julho, Flávio sugeriu que as tarifas americanas de 25% sobre produtos brasileiros fossem aplicadas só após a eleição para não prejudicar sua campanha – ela foi aplicada mesmo assim. </p> <p>A decisão do USTR (Escritório do Representante Comercial dos EUA) de sobretaxar o Brasil ocorreu dias depois do então pré-candidato do PL se reunir com autoridades americanas nos EUA em busca de reverter o desgaste causado pela revelação de sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que está preso.</p> <p>Ele também defendeu a interferência dos EUA na segurança brasileira e pediu pressão americana nas eleições, sugerindo, no mesmo discurso, que as terras raras brasileiras seriam a solução para os Estados Unidos. Além disso, em 26 de maio, Flávio se reuniu com o presidente Donald Trump na Casa Branca. </p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/06/trump-flavio-truthsocial.jpg" type="image/jpeg" medium="image"> <media:title> Donald Trump e Flávio Bolsonaro após encontro na Casa Branca </media:title> <media:credit> Divulgação / Truth Social/@realDonaldTrump 02.06.2026 </media:credit> </media:content> <p>De acordo com Peres, da UFRGS, a aproximação dos EUA com a candidatura de Flávio Bolsonaro faz parte de uma iniciativa na América Latina: “Para Trump, é fundamental assegurar a eleição de um governo que esteja tão alinhado com os seus interesses na região, assim como ocorre agora na Argentina, no Peru, no Chile e na Colômbia”. </p> A legislação eleitoral <p>O artigo 24 da Lei das Eleições (nº 9.504/1997) estabeleceu que partidos e candidatos são vedados a “receber direta ou indiretamente doação em dinheiro ou estimável em dinheiro, inclusive por meio de publicidade de qualquer espécie” de governos ou entidades estrangeiras. Além disso, não podem receber de pessoas jurídicas e de licenciadas do serviço público. </p> <p>“As forças políticas procuram reunir o máximo de apoios e forças possíveis. Se tem um grupo atuando fora da lei e buscando apoio internacional, isso causa esse desequilíbrio”, afirmou Júnior, professor da UFF, referindo-se ao princípio de igualdade da disputa que rege a legislação eleitoral. O recebimento de doação estrangeira também pode configurar abuso do poder econômico. </p> <p>Mais importante, a entrada de dinheiro estrangeiro para o financiamento de campanhas pode caracterizar ameaça externa à soberania brasileira. Quando governos ou entidades estrangeiras atuam em favor de um candidato no pleito eleitoral, fere-se a autodeterminação da população de um país. </p> <p>A lei brasileira pervê as seguintes punições:</p> devolução do dinheiro à fonte original ou repasse ao Tesouro Nacional, segundo a Lei das Eleições (art. 24, §4º) cassação do registro do partido, segundo a Lei dos Partidos Políticos (art. 28, I e II) cassação do diploma do candidato eleito, segundo a Lei das Eleições (art. 30-A, §2º) inelegibilidade do candidato, segundo a Lei das Inelegibilidades (art. 22, XIV)

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