ANÁLISE DE COBERTURA

Inflação-fóssil: o custo ausente dos planos de governo presidenciais

nexo · 12/09/2026 ·opiniao

<p>Enquanto conta de luz vira vilã e petroleiras batem recorde de lucro, candidatos ao Planalto tratam dependência de combustíveis fósseis como assunto secundário</p> <p>A conta de luz chega mais alta. No mercado, o carrinho rende menos, e o salário some antes do fim do mês. É uma sensação que quase toda família brasileira conhece, e o reflexo é culpar quem está no poder. Mas parte dessa conta não nasce em Brasília: vem de um modelo energético que, mesmo num país farto de fontes renováveis, segue preso ao preço dos combustíveis fósseis.</p> <p>Esse custo silencioso tem nome: inflação-fóssil. E aparece, muito concretamente, na conta de luz. Mesmo com uma matriz elétrica majoritariamente limpa, o Brasil aciona térmicas a gás, óleo e carvão quando os reservatórios baixam, produzindo energia mais cara e mais suja. Não por acaso, a luz foi a vilã da inflação em 2025, e as projeções para 2026 apontam para reajustes de até 7,95% nas tarifas, bem acima do IPCA previsto de 5%. De quebra, a fatia das térmicas fósseis na matriz elétrica deve saltar de 10% para 18% até 2040, na contramão de qualquer transição energética.</p> <p>Mas a fatura é só a ponta. O modelo fóssil extrai dinheiro das famílias por três vias: pelos impostos, que financiam subsídios para as indústrias de petróleo, carvão e gás; pela conta, que sobe a cada choque de oferta de energia; e pelos desastres climáticos, que recaem sobre quem menos pode pagar. Segundo estudo do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos), no Brasil, para cada R$ 1 que subsidia renováveis, cerca de R$ 2,52 vão para os fósseis — ou seja, gasta-se mais de duas vezes mais sustentando o problema do que financiando a saída. Só em 2024, foram cerca de R$ 47 bilhões. </p> <p>Além disso, o peso da conta de energia é desigual: as famílias brasileiras comprometem cerca de 11,8% dos gastos com energia, fatia maior que a de grandes economias da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).</p> <p>Essa mesma crise engorda os balanços de quem a alimenta. No segundo trimestre de 2026, a Petrobras registrou R$ 52,4 bilhões de lucro líquido, quase o dobro de um ano antes, por conta do preço do petróleo, disparado pela guerra no Oriente Médio (o Brent subiu 54% em 12 meses). No mesmo período, as oito maiores petroleiras do mundo somaram cerca de US$ 93 bilhões de lucro, quase R$ 60 mil por segundo. É a inflação-fóssil em estado puro: a crise que encarece a conta de luz, a comida e a reconstrução de uma cidade alagada é a mesma que remunera os acionistas. Uma transferência de renda cruel, que sai da mesa das famílias para o balanço trimestral dos investidores.</p> <p>Proteger o bolso e enfrentar a crise climática são a mesma decisão, que se resolve onde o dinheiro público é colocado</p> <p>O desequilíbrio também aparece na hora de investir. No primeiro semestre de 2026, quase 85% do que a Petrobras aplicou foi para petróleo, contra menos de 2% em energias de baixo carbono. Além disso, cerca de um terço do óleo extraído foi exportado — prova de que o recorde de produção não é para segurança energética, mas ativo para o lucro.</p> <p>Acima dessa engrenagem existe ainda um andar onde o custo é de fato decidido: o lobby fóssil dentro do sistema político. Em 2025, na Lei das Eólicas Offshore, parlamentares inseriram jabutis (emendas sem relação com o tema principal do texto) que obrigam o país a contratar térmicas a gás e carvão mesmo sem necessidade. Vetadas pela Presidência, elas voltaram à pauta do Congresso — e, se os vetos caírem, o consumidor pagará cerca de R$ 20 bilhões a mais por ano, um aumento de 9% na conta equivalente a viver sob bandeira vermelha por 25 anos, segundo a Frente Nacional de Consumidores de Energia. </p> <p>Não foi um episódio isolado. Ao avaliar a compra da distribuidora Amazonas Energia pela Âmbar, dos irmãos Batista, a própria Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) calculou que o plano custaria cerca de R$ 8 bilhões a mais que o ideal na conta dos consumidores. São decisões tomadas longe da fatura que aparecem nela meses depois. </p> <p>Se essa conta é tão concreta, seria de esperar que ocupasse o centro dos planos de governo de 2026. Não ocupa. Uma análise da Política por Inteiro, do Instituto Talanoa, examinou os seis principais programas dos seis principais candidatos à Presidência e constatou que, em todos, a transição energética aparece como mera diversificação da matriz, sem cronograma para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis. </p> <p>Quando o tema aparece, é de forma tímida ou contraditória. O plano de Lula (PT) é o único a citar o compromisso de o Brasil ajudar a construir um mapa do caminho global para reduzir os fósseis, embora mantenha o petróleo e o gás em sua estratégia, sem trajetória definida de saída. No extremo oposto, num programa em que a mudança do clima sequer é citada, Flávio Bolsonaro (PL) defende expandir o petróleo e o gás, incluindo o gás não convencional por fraturamento (fracking). Nenhum dos candidatos trata o subsídio aos fósseis como o problema de custo de vida que é.</p> <p>A boa notícia é que a saída não exige inventar dinheiro, apenas parar de gastá-lo contra nós mesmos. Os bilhões que hoje sustentam os fósseis poderiam financiar o que de fato barateia a energia: renováveis — que, segundo a Agência Internacional de Energia Renovável, já têm 91% dos seus novos projetos mais baratos que os projetos fósseis —, baterias e eficiência. É uma troca que rende duas vezes, já que, no curto prazo, alivia a conta de luz e blinda o orçamento contra choques do outro lado do planeta, enquanto, no longo, constrói um sistema mais barato e estável, bem como menos exposto à próxima guerra.</p> <p>Este é o ponto que costuma passar batido: redirecionar subsídio não é escolher entre a economia e o clima. Cada real que deixa de bancar o fóssil e passa a financiar a energia limpa é, ao mesmo tempo, política climática e de custo de vida. Não se trata de pedir sacrifício às famílias em nome do planeta, mas de parar de fazê-las pagar por um modelo que não serve sequer ao seu bolso.</p> <p>No fim, tudo volta àquela conta de luz na mesa da cozinha. Ela não precisa ser o sintoma de um sistema que extrai de muitos para poucos. Pode ser o oposto: a prova de que o país escolheu a energia mais barata, mais limpa e mais sua. Proteger o bolso e enfrentar a crise climática nunca foram agendas concorrentes: são a mesma decisão, que se resolve onde o dinheiro público é colocado. </p> <p>João Cerqueira é engenheiro ambiental e diretor da 350 Brasil. </p>

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