Soberania: quando uma eleição é alvo da extrema direita global
<p>Estados Unidos impõem sanções sobre o Brasil nos meses que antecedem o pleito. Pesquisadores apontam para ação coordenada e internacional de campo político extremista</p> <p> </p> <p>Os meses anteriores à eleição brasileira de 2026 foram marcados pelas ações dos Estados Unidos contra o Brasil, com uso de instrumentos econômicos, jurídicos e diplomáticos. Segundo pesquisadores ouvidos pelo Nexo, as medidas fazem parte de uma iniciativa coordenada da extrema direita global, que busca expandir sua influência no mundo e, em especial, na América Latina. O quarto Durma com Essa da temporada especial sobre as Eleições 2026 explica os diferentes elementos que compõem o quadro e traz análises sobre os riscos externos ao processo eleitoral brasileiro. O episódio conta com a participação de Thiago Amparo, advogado e professor de direito internacional e de direitos humanos na FGV Direito-SP (Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getulio Vargas); e de Daniela Costanzo, cientista política e pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento).</p> <p>Assine o podcast: Megaphone | Apple Podcasts | Deezer | Google Podcasts | Spotify | Outros apps (RSS)</p> <p>Edição de áudio Brunno Bimbati</p> <p>Produção de arte Yasmin Menezes</p> <p>Ilustração Lua Lopes</p> Transcrição do episódio <p>Marcelo: Um país que é alvo de sanções de outros governos. Uma eleição que está na mira de uma extrema direita global. Um risco externo que virou um dos principais temas da disputa à Presidência. Eu sou o Marcelo Roubicek e este é o quarto episódio da temporada especial do podcast Durma com Essa para as Eleições de 2026.</p> <p>Mariana: Olá, eu sou a Mariana Vick e tô aqui com o Marcelo pra apresentar este podcast que vai ao ar toda semana no período das eleições de 2026, ecoando os principais temas que vão ajudar a definir essa disputa. E hoje a gente vai falar sobre interferência externa.</p> <p>[trilha de abertura]</p> <p>Marcelo: Bom, Mari, esta temporada especial do podcast é sobre as eleições brasileiras. E até aqui, a gente falou basicamente de Brasil. Mas a gente não pode esquecer que o Brasil não tá sozinho no mundo. Nosso país tá inserido num contexto internacional, e as coisas que acontecem aqui podem refletir tendências que aparecem em outros lugares também. Isso sem falar que o Brasil interage com os outros países na diplomacia, nas relações comerciais… E, como a gente vai falar hoje, a gente tem até sido alvo de outras nações.</p> <p>Mariana: Pois é, Marcelo. Nesse sentido, esta é uma eleição diferente, porque o componente externo não é só mais um tema do debate, como em outros momentos. Desta vez, ele é uma presença permanente pairando sobre a nossa corrida eleitoral.</p> <p>Marcelo: E até por isso, vale a mesma ressalva que a gente fez quando falou do caso Master, lá no nosso segundo episódio: a gente não tem como prever o futuro, e é possível que as coisas mudem entre o momento que a gente está gravando, no começo de setembro, e as eleições. Mas o que a gente tem até aqui já é um caldo bem grosso que a gente pode tentar digerir pra entender esse momento atual. Então vamos lá?</p> <p>Mariana: Vamos lá.</p> <p>[trilha conceitos]</p> <p>Marcelo: Pra começar essa discussão, vamos olhar para nossa lei mais importante: a Constituição Federal de 1988. A Constituição tem centenas de artigos, mas o primeiro deles diz que o Brasil é um Estado Democrático de Direito, que tem como um de seus fundamentos a soberania. Vale, então, a gente tentar entender essa palavra tão importante.</p> <p>Mariana: Cientistas políticos e historiadores costumam voltar pro século 17 pra falar do conceito de soberania como a gente o conhece hoje. Mais especificamente para 1648, ano da Paz de Vestfália, que nada mais foi que uma série de tratados que acabaram com duas guerras importantes da Europa: a Guerra dos 80 anos, entre Espanha e Países Baixos, e a Guerra dos 30 anos, envolvendo várias nações.</p> <p>Marcelo: A Paz de Vestfália é um marco importante pra falar de soberania, porque a partir de então passou a existir mais clareza sobre uma autoridade única de um determinado chefe – geralmente um rei – sobre um território. A gente precisa lembrar que, antes disso, o modelo feudal tinha suseranos e vassalos, então um senhor feudal provavelmente era vassalo de um outro senhor, e esse daí era vassalo de outro, e por aí vai até chegar no rei ou no imperador. Essa também era uma época em que o poder da Igreja era enorme, e a autoridade religiosa dividia várias competências com a monarquia.</p> <p>Mariana: A partir do século 17, então, você começa a ter uma redução dessa difusão do poder, que começa a se concentrar em torno do chefe do Estado. E não à toa, o marco da ideia de Estado laico vem da mesma época.</p> <p>Marcelo: Numa entrevista de 2019 pro Politiquês, o podcast de política do Nexo, o Guilherme Casarões, que é cientista político e hoje também é professor da Florida International University, falou que a soberania era o monopólio estrito do exercício da autoridade de um governo dentro de um território. A gente vai destrinchar o que isso quer dizer.</p> <p>Mariana: Uma forma de entender isso é pensando que dentro de um espaço, de uma fronteira, nenhuma outra força política pode disputar o controle político ou a autoridade. E as decisões tomadas pelo governo dentro desse território são respeitadas. Aqui vale tanto pras medidas tomadas pelo governo, de fato, como pras instituições do Estado como um todo.</p> <p>Marcelo: Então a ideia de soberania tem tudo a ver com poder e autoridade. Num país soberano, o monopólio da autoridade cabe ao Estado. Só que esse monopólio, às vezes, é contestado ou desafiado tanto por ameaças de dentro como por ameaças de fora.</p> <p>Mariana: Se tem algum grupo interno que ameace a legitimidade ou atuação de um governo, ou que toma para si o poder em algum território, dá pra dizer que existe uma ameaça interna à soberania. Mas, se tem algum tipo de ameaça de fora – seja de outro país, de grupos terroristas ou algo assim –, você tem uma ameaça externa à soberania.</p> <p>Marcelo: Então, a manutenção da soberania tem a ver com manter suas fronteiras livres de ameaças, ficar longe da ingerência externa e garantir que não haja qualquer ameaça doméstica à manifestação do poder. Mas é importante a gente também trazer outro aspecto quando a gente fala de soberania. Aqui a gente já vai acionar a Daniela Costanzo, que é cientista política e pesquisadora do Cebrap, o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento.</p> <p>Daniela Costanzo: Então, é uma palavra que eu acho que está em transformação, mas a gente poderia associar ela a essa capacidade do país se autodeterminar. Então, o país ter ali todas as condições de seu povo se autodeterminar. Então, acho que seria um pouco por aí nesse debate, né? E aí a intervenção fere a soberania, porque justamente ela não deixa que o povo desse país se autodetermine, seja por eleições, seja outras condições.</p> <p>Mariana: A Daniela falou três coisas superimportantes para a gente. A primeira é que soberania passa pela ideia de autodeterminação, ou seja, que um povo tenha autonomia para decidir sobre os próprios rumos. A segunda é que um dos caminhos para isso é o processo eleitoral. E a terceira é que a interferência externa pode justamente ferir essa soberania, no sentido de tentar mexer de alguma forma nessa autodeterminação.</p> <p>Marcelo: Olha, Mari, tudo isso é chave para entender por que a gente tá falando de soberania neste momento. Um momento em que a gente tá perto de uma eleição, com gente de fora olhando com atenção pra gente.</p> <p> </p> <p>[Áudio Donald Trump 1]<br/> Donald Trump: They are treating president Bolsonaro very unfairly, he’s a good man…</p> <p> </p> <p>Marcelo: Esse daí é o Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, dizendo que o tratamento dado pela Justiça brasileira ao Jair Bolsonaro é injusto. Essa fala aconteceu mais ou menos um mês antes de o Bolsonaro ser preso, e dois meses antes de ele ser condenado, no ano passado, por tentar um golpe de Estado no Brasil.</p> <p>Mariana: Cenas como essa, do Trump falando ou tomando medidas contra o Brasil, têm sido comuns nos últimos tempos. Elas têm tudo a ver com o contexto eleitoral. E é por causa delas que a gente tá falando de soberania.</p> <p>Marcelo: Só que antes de a gente falar das eleições, a gente pode aproveitar este momento pra explicar mais um conceito bem importante pra nós, e que a gente vai usar bastante ao longo deste episódio: extrema direita.</p> <p>Mariana: Nossa principal referência aqui é o cientista político holandês Cas Mudde, que é professor da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos. Ele separa o campo da direita em dois grandes blocos. O primeiro é o da direita “mainstream”, composta por democratas cristãos e conservadores.</p> <p>Marcelo: O outro bloco é o que ele chama de “far right”, que seria uma “direita longínqua”, numa tradução literal. De modo geral, a “far right” se baseia no conservadorismo, na ideia de um passado idealizado, na criação de inimigos internos e na hostilidade a fundamentos da democracia liberal — como proteção às minorias e aquela noção de freios e contrapesos entre os Poderes que a gente citou no nosso primeiro episódio.</p> <p>Mariana: O Cas Mudde divide a “far right” em duas frentes. Uma seria a “direita radical”, que costuma ser nacionalista e rejeitar o liberalismo, no sentido de rejeitar os direitos universais para todas as pessoas. Mas essa direita, mesmo sendo radical, participa do jogo democrático e respeita as regras do jogo. Quer dizer, ela não rejeita exatamente a democracia.</p> <p>Marcelo: A segunda frente dentro da “far right” seria a “extreme right” — ou seja, a “extrema direita”, em tradução literal. Aí entram grupos e pessoas que são abertamente contra a democracia e não se propõem a jogar dentro das regras do jogo.</p> <p>Mariana: A gente tá usando esses termos em inglês porque a expressão “far right” não tem uma tradução consensual no Brasil. Tem gente que fala “ultradireita”, tem gente que fala “extrema direita”. Desde 2015, a gente aqui no Nexo usa o termo “extrema direita”.</p> <p>Marcelo: Por isso, toda vez que a gente falar aqui de extrema direita, a gente vai estar se referindo a essa “far right”, ou seja, a esse grande bloco heterogêneo dentro da direita que rejeita o liberalismo; que geralmente defende que a nação pertence a determinado grupo étnico-racial; que tem valores conservadores; que defende um tradicionalismo ligado a um passado idealizado; que muitas vezes aposta no uso das redes como instrumento de comunicação; que costuma ter uma visão antiglobalização; e que geralmente adota uma postura antissistema.</p> <p>Mariana: É claro que esse grupo todo tem gente muito diferente. E de diferentes partes do mundo. Dá pra falar no Jair Bolsonaro, ex-presidente do Brasil; do Javier Milei, presidente da Argentina; do Donald Trump, presidente dos Estados Unidos; da Marine Le Pen, da França; da Giorgia Meloni, primeira-ministra da Itália; do Nayib Bukele, presidente de El Salvador; do Viktor Orbán, ex-primeiro-ministro da Hungria; e por aí vai.</p> <p>Marcelo: Vale falar de novo que a gente sabe que essas pessoas todas são diferentes. Mas elas entram nessa definição de extrema direita que a gente vai usar neste episódio. Então vamos lá que é hora de falar desse grupo político.</p> <p>[trilha chamada acesso livre]</p> <p>Marcelo: Antes disso, a gente tem uma novidade pra você, ouvinte do Durma. Como você sabe, o período eleitoral é um momento que precisa de informação de qualidade. A democracia depende de informação de qualidade. Por isso, todos os conteúdos de eleições publicados no Nexo estão com acesso livre, para você ler, ouvir, assistir e compartilhar. Então acompanha a gente no nexojornal.com.br pra ficar por dentro de tudo que você precisa saber para decidir seu voto. E se você gostar do nosso trabalho, assine o Nexo. Nosso jornalismo é financiado pela assinatura de gente interessada nos rumos dos país e do mundo, assim como você.</p> <p>Mas vamos voltar pra nossa história.</p> <p>[troca de trilha]</p> <p>Mariana: O ano de 2026 traz alguns marcos importantes quando a gente fala da extrema direita. Em junho, fez 10 anos que o Reino Unido aprovou a saída da União Europeia, o Brexit. Essa decisão, lá em 2016, veio por um plebiscito que escancarou o avanço de um discurso xenófobico. Discurso esse que tava avançando não só em terras britânicas, mas em vários países da Europa.</p> <p>Marcelo: Também agora, em novembro, vai fazer 10 anos que o Donald Trump venceu uma eleição pra presidente que praticamente ninguém achava que ele ia ganhar. Na época, inclusive, ele nem era levado tão a sério. Mas quatro anos depois, quando ele tava saindo da Casa Branca e os seus apoiadores invadiram o Capitólio, naquele 6 de janeiro de 2021, deu pra ver o quanto ele representava de ameaça para a democracia.</p> <p>Mariana: Desde os anos 2010, vários países elegeram líderes de extrema direita. A gente já citou alguns aqui, como Argentina, Hungria, El Salvador, Itália, Estados Unidos e Brasil. Mas a gente também teve Holanda, Polônia, Israel e, mais recentemente, alguns dos nossos vizinhos, como Chile, Peru e Colômbia.</p> <p>Marcelo: Esse sucesso eleitoral de tanta gente da extrema direita não aconteceu por acaso. Se ele tem cara de projeto internacional, é porque ele é um projeto internacional, que a gente poderia até chamar de coalizão. Quem explica pra gente é o Thiago Amparo, que é advogado e professor de direito internacional e de direitos humanos da Fundação Getulio Vargas.</p> <p>Thiago Amparo: Essas coalizões elas na verdade se dão muito claramente a um intercâmbio desses diferentes líderes ao redor do mundo; às conferências conservadoras, onde eles se encontram e trocam experiências. As políticas que são adotadas depois também são políticas, muitas vezes, reforçando pontos que existem em outros países. E também há a questão do apoio muitas vezes financeiro do próprio Estados Unidos para esse tipo de iniciativa. Então, claramente a gente vê uma, um, um, uma mobilização, que é uma mobilização no sentido de, é, tentar espalhar, né, uma visão mais extremista…</p> <p>Mariana: Entre essas conferências citadas pelo Thiago, a principal delas talvez seja a CPAC, que é a sigla para a Conferência da Ação Política Conservadora. A CPAC é um evento anual que acontece há algumas décadas, mas que tem tido esse papel de ser uma grande convenção da extrema direita nos últimos anos. Inclusive, foi na edição de 2026, em março, que o Flávio Bolsonaro falou sobre a possibilidade de oferecer aos Estados Unidos acesso a terras raras brasileiras.</p> <p>Marcelo: Além das conferências e dos encontros físicos, uma parte importante da organização da extrema direita global se dá em ambientes digitais. É fácil a gente entender isso quando a gente pensa que a extrema direita brasileira – em especial o bolsonarismo – é muito forte nas redes. A Daniela Costanzo, do Cebrap, explicou pra gente como essa ocupação de ambientes digitais tem a ver com uma troca de experiências de diferentes países.</p> <p>Daniela Costanzo: Existe uma coordenação sim de conteúdos no sentido de aprendizado internacional, né? Então eles trocam o tempo todo com as redes de extrema direita, aprendem. E, como eu falei, tem cursos, né? Então se você olhar o que a gente chama de ecossistema digital bolsonarista, ele é feito muito por cursos também, né? Então tem cursos, tem treinamento para você lidar com as mídias sociais, assim. Acho que esse é o principal foco deles, né? Ensinar todo mundo a lidar com as redes, assim, com as mídias sociais do mesmo jeito que se lida nos outros países. Por outro lado, também eles ensinam muito, né? Então, é uma troca mesmo, não é só que eles aprendem com essa rede, né? É uma troca.</p> <p>Mariana: A gente falou aqui dos sucessos eleitorais, mas não foram só vitórias da extrema direita nesses últimos 10 ou 15 anos. Entre os principais reveses a gente pode citar o Donald Trump, que perdeu a eleição americana em 2020 e não aceitou o resultado; o Bolsonaro, que fez a mesma coisa aqui no Brasil, em 2022; e, recentemente, o Viktor Orbán, que foi primeiro-ministro da Hungria por 16 anos, perdeu a eleição e saiu do poder.</p> <p>Marcelo: Então, assim, já deu tempo de, em alguns lugares, a gente ver uma ascensão e queda desses líderes. No caso dos Estados Unidos, deu pra ver até a volta da extrema direita ao poder, que é, inclusive, o que pode acontecer aqui no Brasil nesta eleição, em caso de vitória do Flávio Bolsonaro.</p> <p>Mariana: Mas tirando isso, o que mais mudou nesses últimos anos com a extrema direita? Aqui uma leitura da Daniela Costanzo:</p> <p>Daniela Costanzo: Eu acho que ficou mais fácil você criticar a democracia, me parece assim, lá de 2016 para cá, né? Porque o que eles fazem no fundo é atacar a democracia, né, até. Então, a gente tem uma disputa contra a democracia, né? Então, é, eles usam a retórica de que eles são, na verdade, democráticos, né? Mas, é, ficou menos custoso você atacar as instituições democráticas ou mesmo, por exemplo, atacar imigrantes. Algo que foi ficando cada vez mais grave.</p> <p>Mariana: Ou seja, como a gente se acostumou com o protagonismo de um campo político mais radical, a gente foi criando ainda mais espaço pra corrosão da democracia – um processo que aconteceu aqui no Brasil e que, aliás, a gente descreveu no primeiro episódio do nosso podcast. Pra quem ainda não ouviu, fica a dica.</p> <p>Marcelo: Para além de tudo isso, Mari, a gente tem uma certa novidade desde 2025, que é a volta do Trump ao poder. E, como o Thiago Amparo contou pra gente, as coisas mudaram em relação ao primeiro mandato, quando o Trump tava muito mais preocupado com as coisas que aconteciam dentro dos Estados Unidos.</p> <p>Thiago Amparo: Então ele muda a atitude para o segundo mandato. E aí essa a atitude do segundo mandato, ele vê como a possibilidade de projeção internacional, o uso do poderio econômico e militar dos Estados Unidos para ele se consolidar como, né, um líder dessa extrema direita. E aí ele vê os líderes mundiais como a favor ou contra ele, nessa visão mais de de dicotomia, na visão binária de eh nós ou eles, né?</p> <p>Mariana: Esse olhar do Trump mais voltado para fora fica bem claro quando a gente lembra que ele fez ameaças de anexar o Canadá e a Groenlândia; apertou o embargo contra Cuba; promoveu um ataque ao Irã junto com Israel; e sequestrou no começo deste ano o Nicolás Maduro, então presidente da Venezuela, colocando no lugar um governo alinhado aos interesses americanos.</p> <p>Marcelo: E já que você falou na Venezuela, Mari, a gente precisa deixar claro que, no caso da América Latina, esse olhar “nós ou eles”, que o Thiago Amparo mencionou, tem um personagem importante: o Marco Rubio, que é secretário de Estado dos Estados Unidos e filho de imigrantes cubanos. Ele tem dado uma atenção especial pra região pra expandir a influência americana por aqui.</p> <p>Mariana: A gente citou vários países vizinhos que deram essa guinada pra direita. E, se a gente for parar pra pensar, faz sentido que o Brasil seja uma espécie de joia da coroa pra esse projeto, por ser o maior país da América do Sul e a economia mais importante da região.</p> <p>Marcelo: E, como a gente bem sabe, o Brasil vai ter a possibilidade agora em outubro de escolher pela volta da extrema direita ao poder. Então chegou a hora de falar de interferência externa aqui na nossa eleição.</p> <p>[troca de trilha]</p> <p>Mariana: O Trump começou o segundo mandato em janeiro de 2025. Em abril daquele ano, ele fez um anúncio de tarifas sobre diversos países, incluindo uma taxa de 10% sobre o Brasil. Isso quer dizer que, se esses países quisessem vender produtos pros Estados Unidos, teriam que pagar uma taxa alta pro governo americano para conseguir acessar esse mercado. Na prática, as coisas são um pouco mais complicadas que isso, mas o raciocínio básico é esse.</p> <p> </p> <p>[Áudio Donald Trump 2]<br/> Donald Trump: Brazil, 10%, 10%. Bangladesh is 74%…</p> <p> </p> <p>Mariana: Essas tarifas depois foram derrubadas pela Suprema Corte americana, mas o que importa pra gente é que essa foi uma primeira medida que atingiu o Brasil.</p> <p>Marcelo: Três meses depois disso, o Trump anunciou uma tarifa valendo só para os brasileiros. Desta vez, os nossos produtos seriam alvo de uma sobretaxa de 40%. Então, somando com os 10% impostos alguns meses antes, a gente ficaria com 50% de taxa.</p> <p>Mariana: Numa carta pro presidente Lula, o Trump disse que a justificativa pra essa tarifa contra o Brasil era uma suposta caça às bruxas contra o Jair Bolsonaro, um aliado do presidente americano dentro daquela rede de extrema direita que a gente descreveu. Na época, o Bolsonaro tava aguardando julgamento por tentativa de golpe de Estado. E ele acabou sendo condenado a 27 anos de prisão algum tempo depois.</p> <p>Marcelo: O Trump também citou outro fator, dizendo que as taxas se deviam em parte “aos ataques insidiosos do Brasil contra eleições livres e à violação fundamental da liberdade de expressão dos americanos (como demonstrado recentemente pelo Supremo Tribunal Federal do Brasil, que emitiu centenas de ordens de censura SECRETAS e ILEGAIS a plataformas de mídia social dos EUA, ameaçando-as com multas de milhões de dólares e expulsão do mercado de mídia social brasileiro).</p> <p>Mariana: Aqui tem dois elementos que vale a gente destacar. O primeiro é essa menção às plataformas de mídia social, que, como a gente tava contando agora há pouco, têm um papel importante na organização da extrema direita mundial. O outro ponto é essa crítica bem explícita ao Supremo Tribunal Federal, que é algo que remete ao primeiro episódio desta temporada do nosso podcast, quando a gente falou sobre os Três Poderes no Brasil.</p> <p>Marcelo: Não por acaso, nessa mesma época o governo americano decidiu aplicar a Lei Magnitsky contra o Alexandre de Moraes, ministro do Supremo que tava relatando o julgamento do Bolsonaro. Pra resumir, a Lei Magnitsky permite que o presidente americano coloque sanções econômicas sobre pessoas associadas a violações de direitos humanos ou corrupção – que, na leitura do Trump, seria o caso do Moraes.</p> <p>Mariana: A esposa do Moraes, a Viviane Barci, também foi alvo dessa lei. E outros ministros da corte tiveram seus vistos de entrada nos EUA suspensos. Mais para frente, a aplicação da Magnitsky acabou sendo revogada, mas as suspensões dos vistos, não.</p> <p>Marcelo: Essa iniciativa do governo Trump contra o Brasil não veio do nada. Ela foi resultado daquela troca entre a extrema direita global que a gente tava explicando antes. E aqui tem um personagem específico que a gente precisa mencionar: o Eduardo Bolsonaro.</p> <p> </p> <p>[Áudio Eduardo Bolsonaro 1]<br/> Eduardo Bolsonaro: Originalmente, né, no projeto meu e do Paulo Figueiredo, a nossa ideia era fazer sanções individuais ao Alexandre de Moraes. Bem, quando isso foi levado à mesa do presidente Trump, nós ficamos muito felizes que ele voltou os seus olhos, deu total sua atenção ao Brasil, começou a falar inclusive na sua rede social sobre o Brasil. Ele optou por fazer as tarifas. Eu confio na presidência, no presidente Trump. Eu acho que ele tem muito mais experiência do que eu nesse ponto.</p> <p> </p> <p>Mariana: Você ouviu aí o Eduardo Bolsonaro, filho do Jair e irmão do Flávio, numa entrevista pro portal Metrópoles em agosto de 2025. Nessa entrevista, ele falou abertamente sobre ter ajudado a articular as tarifas contra o Brasil. E também falou um pouco sobre os objetivos dele com essa medida.</p> <p> </p> <p>[Áudio Eduardo Bolsonaro 2]<br/> Eduardo Bolsonaro: Hoje em dia a gente consegue falar abertamente em anistia, algo que tava enterrado até há um tempo atrás e depois ele foi evoluindo para a lei Magnitsky, né, retirada de vistos. Então ele tá dando tratamento ao Brasil de um regime nada democrático.</p> <p> </p> <p>Marcelo: Aqui, quando o Eduardo fala em anistia, ele tá falando de perdão aos condenados pelos atos golpistas do 8 de janeiro – o que, obviamente, incluiria o pai dele. Então, você vê: o Trump tomou uma medida que foi articulada com o objetivo de mexer diretamente na nossa política, e que tem ligação com um caso em que nossa democracia foi atacada abertamente.</p> <p>Mariana: Agora, em 2026, o Eduardo foi condenado justamente por essa atuação, lá dos Estados Unidos, para tentar interferir no julgamento do Jair por tentativa de golpe de Estado.</p> <p>Marcelo: Voltando pro Trump, Mari, as coisas não pararam por aí. Em 2026, foram novas medidas dos Estados Unidos contra o Brasil. Em maio, o governo americano decidiu classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Essa era uma bandeira defendida pelo bolsonarismo, até pelo fato de que a direita aqui dá bastante destaque ao tema da segurança pública — muitas vezes com propostas simplistas.</p> <p>Mariana: A gente vai falar mais nos próximos episódios sobre as facções. Mas, por enquanto, o que interessa pra gente é que, na prática, a classificação de terrorismo abriu uma possibilidade de os Estados Unidos usarem instrumentos jurídicos, econômicos e, olha só, militares contra o Brasil. Então, no limite, o combate ao terrorismo pode acabar sendo usado como um pretexto pra ações das forças americanas por aqui. Não é à toa que a gente tava falando em soberania.</p> <p>Marcelo: Aliás, o anúncio dessa classificação aconteceu um dia depois de um encontro em Washington do Flávio Bolsonaro com o Marco Rubio, de quem a gente tava falando agora há pouco.</p> <p>Mariana: Mas teve mais. Pouco tempo depois disso, em junho, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos concluiu uma investigação que ele tinha começado lá em 2025 sobre possíveis práticas desleais do Brasil no comércio internacional. Ao terminar essa investigação, ele indicou uma nova tarifa de 25% sobre os produtos brasileiros.</p> <p>Marcelo: Foram vários os motivos dados pelo governo americano para impor essa tarifa. Numa esfera digital, eles citaram de novo decisões do Supremo que suspenderam perfis em redes sociais americanas e falaram daquele episódio de bloqueio do X, o antigo Twitter, que a gente teve em 2024. Além disso, eles falaram de um fator que teria prejudicado injustamente as empresas americanas: o Pix.</p> <p>Mariana: Pois é, o Pix, que foi lançado em 2020 e virou o meio de pagamento preferido dos brasileiros, virou um alvo dos Estados Unidos. E justamente por um dos seus aspectos mais importantes: ele é gratuito. Na cabeça do governo americano, toda vez que você faz um Pix e não paga por essa transferência, tem um pouco de dinheiro a menos entrando pras grandes empresas americanas de cartão de crédito.</p> <p>Marcelo: Os Estados Unidos trouxeram ainda outras coisas pra mesa, como tarifas mais baixas que o Brasil aplica sobre produtos do México e da Índia; esforços insuficientes pra combater a corrupção; e também queixas sobre a atuação do Brasil no mercado de etanol.</p> <p>Mariana: Os documentos publicados pelo governo americano também falaram sobre a falta de medidas do Brasil contra a pirataria, citando nominalmente a rua 25 de Março, aqui no centro de São Paulo.</p> <p>Marcelo: E pra fechar, também criticaram a política ambiental do Brasil, e a falta de efetividade de políticas contra o desmatamento. Isso num momento em que o desmatamento tá caindo.</p> <p>Mariana: Olha, Marcelo, vamos ser sinceros… É difícil imaginar que os Estados Unidos realmente fariam todo esse alvoroço por causa da 25 de março e coisas do tipo. Então é difícil não pensar que, por trás de tudo isso, existe um componente ideológico muito grande. E essa tarifa foi publicada a alguns meses da eleição brasileira.</p> <p>Marcelo: Mas acredite, Mari, teve mais. Poucos dias depois de saírem essas tarifas, também foi anunciada uma nova sobretaxa ao Brasil e mais cerca de 60 países, desta vez por falhas no combate à importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. Aí foram mais 12,5% que incidiram sobre produtos brasileiros.</p> <p>Mariana: Desde o primeiro tarifaço, o governo brasileiro tentou abrir algumas frentes de conversa com os Estados Unidos. Em especial, o próprio Lula tem tido encontros e conversas com o Trump pelo telefone, e quase sempre os relatos são de um diálogo tranquilo e amistoso. O próprio Lula falou sobre isso numa entrevista para a TV Record em agosto.</p> <p> </p> <p>[Áudio Lula]<br/> Lula: Eu não sei se é o governo americano, se é o Trump, ou se é a assessoria do Trump. Eu às vezes tenho a impressão de que o Trump é bem melhor na relação política do que a assessoria. Eu disse para ele. Disse, falei: “não é possível, nós conversamos e tudo vai bem”. A minha conversa com o Trump é muito civilizada, muito respeitosa, tanto da minha parte como da parte dele. Mas depois o segundo escalão toma atitudes que são impensáveis. E nós não podemos aceitar.</p> <p> </p> <p>Mariana: Segundo a Daniela Costanzo, do Cebrap, essa tentativa do governo brasileiro de falar direto com o Trump e essa dissonância em relação ao que o Lula chamou de “segundo escalão” não é por acaso.</p> <p>Daniela Costanzo: Tem uma tentativa muito grande do governo negociar diretamente com o Trump, entendendo que o Trump em si não é o problema, não seria ele que estaria interferindo, mas sim o Marco Rubio principalmente, o departamento de Estado dos Estados Unidos. Então ao negociar com Trump pode ter, pode ser criada uma barreira, né, para essa intervenção, então essa é a tentativa.</p> <p>Mariana: Aqui parece ser um bom momento pra adiantar, então, que a leitura dos nossos entrevistados e de vários outros pesquisadores é que, sim, o que a gente tem visto é uma tentativa de interferência sobre a eleição brasileira pelos Estados Unidos. E, como a Daniela contou pra gente, o governo brasileiro tá tentando contornar essas iniciativas.</p> <p>Marcelo: A gente vai falar daqui a pouco sobre o que essa interferência significa num sentido um pouco mais profundo. Mas, acredite ou não, a gente ainda vai trazer outros episódios que aconteceram nesses últimos meses e que ilustram essa interferência.</p> <p>Mariana: Ainda em julho, o Brasil negou o visto de dois assessores do Departamento de Estado americano, por suspeitas de que eles viriam para cá para questionar nossas eleições. Pouco depois, o jornal americano Washington Post publicou uma reportagem dizendo que, realmente, eles tinham a intenção de lançar dúvidas sobre a urna eletrônica — algo, aliás, que o Flávio Bolsonaro também fez em julho, na frente de embaixadores, repetindo o pai dele em 2022. Lembrando que as mentiras do Bolsonaro sobre as urnas foram um dos motivos que o tornaram inelegível.</p> <p>Marcelo: Poucos dias depois desses vistos serem negados, os Estados Unidos revogaram o visto da embaixadora brasileira em Washington, a Maria Luiza Ribeiro Viotti. Foi mais um desses episódios sem precedentes que ajudaram a tensionar muito a relação entre os dois países.</p> <p>Mariana: Mas essa interferência, Marcelo, não vem só dos Estados Unidos. No dia do lançamento da campanha do Flávio Bolsonaro, em 25 de julho, o presidente da Argentina, o Javier Milei, veio pro Brasil e tomou a palavra.</p> <p> </p> <p>[Áudio Javier Milei]<br/> Javier Milei: Lo que quiero decirles es que Brasil aún no vivió las consecuencias más nefastas y profundas de este modelo, pero puede vivirlas si no da una vuelta de timón. Confiamos en ti, Flávio, para lograr parar a la basura socialista!<br/> [O que quero lhes dizer é que o Brasil ainda não viveu as consequências mais profundas e devastadoras desse modelo, mas poderá vivê-las se não mudar de rumo. Confiamos em você, Flávio, para deter o lixo socialista]</p> <p> </p> <p>Marcelo: Não precisa entender muito de espanhol pra ver que o Milei não tava falando coisas muito amistosas sobre o governo brasileiro, que ele chamou de lixo socialista. E essa foi só uma das ofensas que ele fez contra autoridades brasileiras, incluindo o Lula e, pra variar, o Alexandre de Moraes.</p> <p>Mariana: Colocando em perspectiva o fato de que o Milei é um dos principais expoentes da extrema direita na América Latina; que ele fez isso num evento eleitoral; e que isso aconteceu num momento em que a diplomacia brasileira já tá pressionada pela ofensiva americana, dá para perceber que nossa eleição tá na mira de muita gente de fora daqui.</p> <p>[troca de trilha]</p> <p>Marcelo: Até aqui, a gente falou de várias ações externas no nosso contexto eleitoral ou pré-eleitoral, mas é importante deixar claro que nem toda ação de um país de fora configura uma interferência ou um ataque à soberania.</p> <p>Mariana: Pois é, é normal que outros países participem desse rito democrático. O Thiago Amparo, da FGV, contou pra gente que é comum, por exemplo, ter observadores de fora que acompanham um pleito para ver se o processo foi conduzido de forma justa e transparente. Isso pode ser feito tanto por representantes de países em si como de órgãos internacionais, como a OEA, a Organização dos Estados Americanos.</p> <p>Marcelo: Outra coisa que faz parte do jogo é ter um acompanhamento do processo eleitoral pelo corpo diplomático de outros países. Afinal, faz sentido que os países fiquem de olho nas eleições de outros lugares, pensando no futuro das parcerias, nas relações comerciais e tudo mais.</p> <p>Mariana: Também virou praxe que chefes de Estado reconheçam os resultados de eleições depois que elas terminam, não importa quem ganhou. Neste mundo das redes sociais, inclusive, tem até a figura do tuíte congratulatório marcando o vencedor, principalmente quando os líderes têm uma certa afinidade ideológica.</p> <p>Marcelo: Mas, quando o assunto é participação externa nas eleições, onde acaba a linha do que é normal e onde começa a interferência? Vamos ouvir o Thiago Amparo:</p> <p>Thiago Amparo: Para resumir, assim, há algum tipo de participação estrangeira numa eleição? Muitas vezes há, especialmente quando a gente tá falando de observadores e de acompanhamento, porque isso é importante para os países em questão. Isso não é ilegítimo. Agora, o que é ilegítimo é a partir do momento em que você influencia por meio de, seja por uma guerra informacional ou por meio de pressões diretas ou indiretas, ou apoio mais claro a um determinado candidato em relação ao outro. Quando um país estrangeiro faz isso, aí ele tá influenciando no processo eleitoral que deveria ser, na verdade, decidido pelo povo daquele país, né?</p> <p>Marcelo: “Deveria ser decidido pelo povo daquele país.” Aí de novo aparece aquela ideia de autodeterminação que a gente já tinha falado lá atrás, e que é tão importante para a noção de soberania.</p> <p>Mariana: O Thiago falou dessa preferência ativa por um candidato, que é algo que fica claro quando a gente olha pra toda a história que a gente contou até aqui. A extrema direita global tem uma preferência pelo Flávio e está se mexendo para que ele chegue ao poder. Nesse contexto, o professor da FGV também falou da guerra informacional, que é algo muito característico dos nossos tempos. Vamos entender o que isso quer dizer:</p> <p>Thiago Amparo: Tem um aspecto também informacional que é importante que a gente as pessoas hoje, não só no Brasil, mas particularmente no Brasil, elas acessam informações muitas vezes por meio de redes sociais, por meio de instrumentos que podem ser manipulados em termos de algoritmos. Então também tem uma questão de guerra informacional, questão de vídeos feitos por IA e etc. Que é uma preocupação que já estava anunciada para a Justiça Eleitoral há bastante tempo.</p> <p>Marcelo: A Daniela Costanzo também falou sobre isso, e reforçou aquela ideia de que a ação nas redes – ou melhor, a guerra informacional – não acontece por acaso.</p> <p>Daniela Costanzo: O que se observa é que a gente tem uma tendência de espalhar fake news em períodos eleitorais. Tem algumas estratégias online, né, que também são utilizadas mundialmente e nesse sentido a gente tem essa influência internacional nesse sentido, né? Então, usar as mesmas estratégias. Tem muito muito aprendizado, né? Então, tem treinamento. Uma coisa muito importante assim da extrema direita é que ela treina os seus candidatos, treina os seus eleitores, tem usos de estratégias que são combinados, tem coordenação nas redes.</p> <p>Mariana: Por tudo isso que a gente falou, tá claro que a questão externa é um dos temas mais importantes desta eleição. Pros nossos dois entrevistados, isso é uma novidade. É claro, a gente já teve outras disputas eleitorais em que se falou sobre política externa. Muitas vezes, inclusive, se falou da relação do PT com países como Nicarágua e Venezuela.</p> <p>Marcelo: Mas, desta vez, não é que a gente tá discutindo só o direcionamento da política internacional. Tem outro país falando sobre coisas que afetam diretamente o nosso dia a dia: o Pix, a segurança pública, as tarifas que incidem sobre nossa economia… Então a gente tá discutindo algo maior. Algo que tem a ver com a nossa democracia.</p> <p>Thiago Amparo: Então eu dividiria que debater política externa e de e ter divisões sobre, e tensões sobre um debate democrático sobre política externa é completamente saudável, e faz parte da democracia. Ah, agora você ter uma ingerência externa, ou seja, que outras pessoas e muitas vezes um poder econômico, militar, político diferente, e não o próprio público daquele, os eleitores daquele país decidindo os rumos do país, isso é um problema.</p> <p>Mariana: Pra fechar, Marcelo, acho que só tá faltando a gente falar de uma coisa importante, que são os riscos reais que a gente corre nesta eleição. Nesse sentido, o Thiago Amparo falou que tão importante quanto o momento da campanha – que é este momento em que a gente está agora – é o que acontece depois da eleição.</p> <p>Marcelo: A gente falou mais cedo sobre a ideia de que virou uma praxe países reconhecerem os governos eleitos de outros países. Mas a verdade é que a gente não sabe se isso vai acontecer depois que saírem os resultados das urnas no Brasil. Segundo o Thiago Amparo, existe um trabalho diplomático sendo feito nos bastidores para tentar garantir que outros países vão reconhecer esses resultados. Isso não é obrigatório, mas ajudaria a fortalecer a imagem da eleição.</p> <p>Mariana: A Justiça Eleitoral também está prevendo a presença de vários observadores externos, desde que, claro, eles não venham para interferir na disputa, como no caso dos funcionários americanos que a gente citou antes. Mas a ideia aqui é ter bastante gente olhando pras nossas eleições e atestando a lisura do pleito e a segurança das urnas.</p> <p>Marcelo: Quer dizer, o Brasil já tá se movimentando para evitar que tenha uma turbulência depois da eleição. Mesmo assim, tem, sim, um fator de incerteza muito grande, em especial em relação aos Estados Unidos.</p> <p>Thiago Amparo: O período de outubro até janeiro é crucial para sobre a questão da lisura das eleições, de quem vai reconhecer, quem não vai reconhecer, seja quem quer que ganhe. E eu acho que mantendo o governo Lula, uma questão que vai ficar é se faz sentido que o Estados Unidos continue o acirramento diplomático, sendo que ele perderia esse objetivo claro de ganhar as eleições. E de outro lado, se o Flávio Bolsonaro ganhar, também as coisas não estão resolvidas, porque aí a gente precisa saber o que de fato os Estados Unidos vai cobrar, além da eleição em si.</p> <p>Marcelo: Então, é um cenário de imprevisibilidade muito grande, ganhando o Lula ou o Flávio Bolsonaro. Se o Lula ganhar, a gente precisa entender se os Estados Unidos vão continuar com essa pressão, ou se ela vai ficar restrita ao pré-eleições. Já se o Flávio ganhar, talvez o governo americano cobre um preço por ter ajudado a cozinhar esse caldo que resultou na vitória da extrema direita.</p> <p>Mariana: No limite, Marcelo, a gente precisa também se perguntar uma coisa importante: existe risco de acontecer com o Brasil o que aconteceu com a Venezuela, no sentido de uma ação militar americana para tirar do poder uma figura considerada inimiga da Casa Branca?</p> <p>Marcelo: Olha, eu fiz essa pergunta pro Thiago e pra Daniela, Mari, e os dois disseram que o risco é relativamente baixo. Primeiro porque o Brasil continua sendo um parceiro econômico importante para os Estados Unidos, e não tem se colocado ativamente em conflito com o governo americano, no sentido de não adotar uma postura mais linha dura nas relações diplomáticas. Além disso, a gente tem aqui uma série de instituições que podem nos proteger, como a própria urna eletrônica; um sistema Judiciário forte; uma ideia disseminada nas Forças Armadas de que é importante proteger a soberania nacional; e, por fim, setores econômicos que dificilmente teriam interesse em se alinhar totalmente aos Estados Unidos, num contexto em que eles vendem bastante para outros países, como a China. Ou seja, sim, tem uma imprevisibilidade, que não dá para descartar totalmente, mas o nosso cenário é diferente.</p> <p>Mariana: Mesmo assim, o próprio fato de que a gente tá fazendo essa pergunta é relevante. Isso é um sintoma de como as coisas chegaram a um nível de esgarçamento muito alto, que ameaça não só a soberania como a democracia brasileira. Por isso, a gente não pode tratar esses eventos como algo normal dentro de um processo eleitoral.</p> <p>[vinheta]</p> <p>Marcelo: Das origens da ideia de soberania, passando pela expansão da extrema direita global no século 21 e pelos riscos à eleição brasileira, durma com essa.</p> <p>Mariana: Com apresentação de Marcelo Roubicek e Mariana Vick, roteiro de Marcelo Roubicek, edição de texto de Mariana Vick, produção de arte de Yasmin Menezes, ilustração de Lua Lopes, pesquisa de Victoria Rengel, distribuição de Paulo Cantalice e Pedro Bardini, e edição de áudio de Brunno Bimbati, termina aqui mais um Durma com Essa. Até a próxima semana!</p>
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| Candidato | Sentimento |
|---|---|
| Flávio Bolsonaro | negativo |
| Lula | neutro |